Quanta floresta os agricultores da Amazônia podem desmatar para produzir? O tema gera debates entre produtores rurais e ambientalistas, e também dentro do governo. Os ambientalistas defendem a lei atual: toda propriedade deve ficar com 80% da mata preservada – a chamada reserva legal. Agricultores e pecuaristas acham que é muito. Querem mudar a lei.
Para o ministro, reserva legal deve ser de 50% nas áreas já ocupadas na Amazônia (Foto: Agência Brasil)
No centro da disputa, o ministro da Agricultura, Reinhold
Stephanes, é enfático ao discordar da regra em vigor. Em
janeiro, ele e o ministro do Meio Ambiente, Carlos Minc, foram
repreendidos pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva após
trocarem farpas por causa da revisão do Código Florestal (lei
que define quais áreas podem ser usadas para agricultura) e de
divergências em relação ao plantio de cana-de-açúcar na Amazônia
e no Pantanal.
Nesta entrevista exclusiva, Stephanes responde a
perguntas enviadas por internautas. Defende que a reserva legal
seja de 50% nas áreas que já estão ocupadas, mas mantendo
intactas as florestas que ainda não foram derrubadas. E ataca
países desenvolvidos que, para ele, querem obrigar o Brasil a
não desmatar, apesar de eles próprios terem devastado suas
reservas naturais.
Cerca de 110 perguntas foram enviadas. Para
atender ao maior número de leitores, muitas questões foram
condensadas. A seguir, a entrevista.
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Lindiane, Fabio Barancelli, Paulo Roberto Berkmann – Qual seria a porcentagem correta para reserva legal (parcela das propriedades rurais que precisa ser mantida com vegetação intacta) na Amazônia? Os 80% no bioma amazônico não inviabilizam qualquer tipo de agricultura?
Sou a favor do desmatamento zero e de uma flexibilização nas áreas já desmatadas, consolidadas. Na Amazônia, temos uma floresta extremamente importante, por um lado, mas, por outro, há uma área já completamente degradada e ocupada. Temos que chegar a uma forma de conseguir o desmatamento zero o mais rápido possível, criando mecanismos para que não aconteça mais devastação e flexibilizando um pouco a área onde já está desmatado, consolidado, para torná-la economicamente viável. E para aqueles que ainda têm direito a desmatar os 20% de suas propriedades, tinham que ser indenizados por esse não-desmatamento.
Valquiria Ferreira Abreu - Seremos nós produtores brasileiros obrigados a pagar pelo desenvolvimento dos países de primeiro mundo que já não têm uma árvore para fazer sombra e querem nos obrigar a sermos o pulmão do mundo?
-
Por que as ONGs holandesas estão no Brasil quando um holandês emite gás de efeito estufa 18 vezes mais do que um brasileiro?"
Os grande poluidores do mundo são os EUA, União Europeia e China.
A nossa Amazônia um dia vai desaparecer, não por causa daquilo
que nós desmatamos, mas pela poluição gerada por esses países,
pelo efeito estufa gerado por eles. A grande pergunta é por que
as ONGs holandesas estão no Brasil quando um holandês emite gás
de efeito estufa 18 vezes mais do que um brasileiro? Por que a
UE critica o Brasil quando nós mantemos 30% das florestas
originárias do mundo, e a UE mantém 0,01%, ou seja, desmataram
tudo? A pergunta do internauta foi bastante correta: por que
temos que pagar esse preço?
Alexandre Frozoni – Pergunto em nome de centenas de
pecuaristas que são legítimos possuidores de suas áreas,
regularizadas junto ao Ibama e ao Incra: até quando seremos
tratados como bandidos e tachados pela sociedade como
devastadores da floresta amazônica?
Temos que tomar o cuidado para não transformar o
agricultor em criminoso, o que ele não é. Temos que ter o
cuidado de atingir aqueles que efetivamente cometem crimes
ambientais. De acordo com a legislação ambiental – falando agora
do Centro-Sul – um milhão de pequenos e médios agricultores está
irregular. E nós não podemos transformá-los em criminosos. Tem
que haver mais racionalidade nesse processo.
saiba mais
Silvio Ricardo Carvalho, Carlos Alberto Araújo Júnior –
Há alguma maneira de estimular os produtores rurais a
preservar as reservas legais de suas propriedades?
Este ano nós criamos pela primeira vez um
estímulo: uma linha de financiamento com juros de 6% ao ano, ou
seja, praticamente juro zero, pois 6% é a inflação, para
recuperação de áreas degradadas de pastagem. Também temos
tecnologia para fazer a integração entre lavoura e pastagem,
para utilizar melhor essas áreas. Temos que criar uma linha de
financiamentos a juros negativos para reflorestamento e a
utilização de florestas de forma industrial nas áreas degradadas.
Além disso, temos um programa para o dendê, que seria uma planta
extraordinária em determinadas regiões. Já foi feito inclusive o
zoneamento das áreas que poderiam ser recuperadas plantando
dendê. O dendê para o biodiesel seria melhor do que a soja pois
protege o solo e pode ser plantado em chão relativamente fraco,
além de ser uma atividade que gera mais empregos.
Alex – Na década de 70, o governo federal incentivava a
população a vir para Rondônia e quem não desmatasse perdia
sua propriedade. Agora o Ministério do Meio Ambiente quer
que aqueles que desmataram 50%, como antes permitia a lei,
replantem a floresta, com o que não concordo. O que o senhor
acha disso?
Se elas tinham direito de desmatar 50%, não podem
ser punidas agora. Se elas tiverem que repor, o Estado tem que indenizar.
Rodrigo Silva – Minha família adquiriu uma área em Careiro da Várzea (AM) que tinha mais de 80% desmatados. O que devo fazer?
Isso teria que ser considerado dentro daquele meu conceito de
área consolidada. Essas pessoas provavelmente adquiriram isso de
boa-fé, e hoje não têm como sobreviver utilizando apenas 20% da
área. Temos que dar condições para que essas pessoas façam o
reflorestamento com alguma atividade econômica.
Anderson – O que o senhor acha do corte de crédito aos
pecuaristas que não têm licença ambiental? Eles vinham se
custeando há anos com esse crédito e do dia para a noite ele
é cortado. Queria saber sua opinião.
-
Temos que dar condições para que essas pessoas façam o reflorestamento com alguma atividade econômica. "
Eu fui contra desde o primeiro momento. Porque houve crimes
ambientais, puniram-se todos os agricultores de uma região.
Aquela portaria envolvia mais de 25 milhões de hectares, ou
seja, uma área maior do que o meu estado do Paraná. Acabou-se
punindo muita gente, muitos agricultores estabelecidos, que
plantam, que estão lá.
Fiz um levantamento no município de Alta Floresta
(MT), onde no ano anterior tinham sido concedidos 200
financiamentos do Pronaf (Programa Nacional de Agricultura
Familiar), e vi que neste ano tinham sido concedidos cinco
financiamentos. Fez-se uma exigência que as pessoas não podem
cumprir, que é altamente burocratizada, que é impossível de se
tratar a curto prazo. Na minha visão, isso não foi correto.
Fabiano Alex Arnhold – Levando em consideração o avanço
das medidas ambientais que protegem a floresta amazônica,
qual será a alternativa para os produtores que vivem na
região e tiram da pecuária o seu sustento?
Quando falei no plantio de dendê como uma das
formas econômicas de ajudar a reflorestar, me refiro a gerar
empregos. Se eu utilizar um milhão de hectares para o plantio de
dendê –e isso naquela região é uma área até pequena – gero 100
mil empregos diretos, e mais uns 100 mil ou 150 mil indiretos.
Outro exemplo que dou é o das carvoarias.
Sobrevoei a região e vi muitas. Vamos lá e destruímos muitas
carvoarias e no mês seguinte você sobrevoa, e vê que elas
surgiram em outro lugar. Temos que achar uma alternativa. Por
que não, em determinadas áreas, se permitir o plantio de
florestas para fornecer matéria-prima para essas carvoarias?
Luiz Carlos de Oliveira, Alexandre Giaretta, Arciso
Bazanella, Robson Caron da Silva – Como é possível ajudar os
pequenos agricultores, os assentados, as pessoas que vivem
em locais com pouca infraestrutura?
Evidentemente temos que olhar isso. Essas pessoas
estão em grande parte vivendo da derrubada de madeira, porque
não têm como sobreviver. Temos que transformá-las menos em
desmatadoras e mais em agricultoras. Ali, pelo menos, elas têm
que poder utilizar 50% da área, e dar todo apoio técnico para
que possam ter uma atividade econômica. Hoje a assistência
técnica é muito fraca.
A próxima entrevista interativa do Globo Amazônia será com o ministro do Transportes, Alfredo Nascimento. Mande sua pergunta!
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