Quando aceitou o convite do governo militar para ajudar a colonizar a Amazônia, na divisa de Mato Grosso com o Pará, o gaúcho Ladislau Juppen achou que estava diante da grande chance da vida. Não demorou para se desiludir.
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“O pessoal trouxe e largou a gente assim, ao Deus
dará”, afirma. Sua esposa também o passou muito medo. “Logo que
a gente chegou, a casa não tinha porta, não tinha janela, era
tudo mato, as onças vinham gritar em volta de casa”, lembra
Teresa Juppen.
Era início dos anos 1980. A família Juppen
persistiu, desmatou metade do terreno, como determinou o
governo, e plantou feijão, arroz e milho. O problema é que não
havia pra quem vender, e Ladislau teve que buscar o sustento no
garimpo, sofrendo com as doenças. “Para te falar a verdade, eu
passei mais de cem malárias”, relata.
Dos 129 colonos que vieram com Ladislau, apenas sete ficaram. Muitos venderam o sítio pelo preço da passagem de volta.
Promessas esquecidas
Na viagem de 20 dias que a equipe da TV Globo realizou na BR-163, de Cuiabá, em Mato Grosso, a Santarém, no Pará, O mesmo cenário se repetiu em dezenas de assentamentos. A situação é pior onde a estrada abandonada não é nem sombra da rodovia que prometeu levar o desenvolvimento à região.
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Castelo dos Sonhos, no Pará, é exemplo dessa
decepção. A vila é um distrito da cidade de Altamira, que fica a
1.000 km de distância.
Na escola pública de Castelo dos Sonhos, parte dos
professores é emprestada de Belém e Altamira. Eles ensinam
durante 50 dias as matérias do ano inteiro e vão embora. “Só
temos um livro de biologia pra o ensino médio. Falta para todas
as outras disciplinas", diz a diretora da escola.
Prosperidade agrícola
Em Mato Grosso, onde o asfalto chegou, a realidade é bem diferente. A lavoura tomou o lugar da floresta, mas a agricultura fez cidades prosperarem.
O município de Sorriso, por exemplo, é o maior produtor de soja
do mundo. São 30 milhões de sacas por ano. Já em Lucas do Rio
Verde, cidade vizinha, o ensino é modelo. As escolas municipais
têm piscina, e as crianças que moram longe, em assentamentos,
passam o dia todo lá. Além do café da manhã, almoço e lanche,
jantam antes de voltar pra casa.
Durante quatro anos, de 2004 a 2007, Lucas do Rio
Verde ganhou o prêmio gestor eficiente da merenda escolar, dado
pelo Ministério da Educação. Lá eles produzem praticamente tudo
o que consomem.
Na esteira do sucesso do município, há pessoas que
enriqueceram. Ex-sem-terra, Ildo Romancini, comemora as
conquistas. Chegou há 27 anos, hoje vive da agricultura e é dono
de supermercado. A mulher dele, Nilva Romancini, divide a vida
na cidade antes e depois do asfalto da BR-163. “Quando fui ter
minha filha em Sorriso, eu fui de carona numa carreta. Chegamos
lá e tive que me lavar antes de me consultar, porque tava toda
cheia de poeira”, conta.
No lado bem-sucedido da BR-163 também vive uma
segunda geração da família Juppen, aquela que veio do Rio Grande
do Sul. Jane Juppen se casou com Vilmar, tiveram três filhas e
vivem hoje num projeto de assentamento. Cultivam mel de abelha,
frutas e extraem sementes da floresta. “Agora nós já temos uma
terra, então eles [os filhos do casal] não precisam mais acampar
pra ganhar a terra, que elas já têm”, comemora Jane.
Na mesma rodovia, a 300 km de distância, o
patriarca da família Juppen se alegra com as conquistas da filha
e das netas. Com a esperança de que um dia o asfalto ainda
chegue na parte abandonada da BR-163, ele lamenta a natureza
destruída por um projeto que ficou no meio do caminho.
“Largaram o pessoal e não impuseram a lei, né?
Ninguém falou nada, então o povo foi derrubando assim a torto e
a direito. Dá tristeza olhar esses rios, lembrar como era
antigamente e ver hoje como é que está”, lamenta Ladislau Juppen.
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