Imagine como seria viver cercado de água por todos os lados: água em volta de casa, água nos jardins, água nas escolas, a rua é a água. Terra firme é raridade na paisagem do Tapará Grande, a duas horas de barco de Santarém. São as terras mais baixas de toda a Planície Amazônica.
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O Tapará é um braço do Rio Amazonas. Na região da
várzea, no oeste do estado do Pará, vivem pouco mais de quatro
mil famílias. De março a agosto é o período das cheias. Tudo vai
sendo tomado pelas águas e muitos moradores têm que abandonar as
casas. A natureza determina o ritmo da vida.
O ano de 2009 trouxe a maior cheia dos últimos
anos. Nas áreas de Urucurituba e Piracãoera de Baixo, a oito
horas de barco de Santarém, a Defesa Civil interditou escolas e casas.
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Na cheia, o nível dos rios Amazonas e Tapajós sobem de sete a dez
metros. A água avança sobre as margens; inunda os campos, os
pastos, as casas. Os ribeirinhos passam dias seguidos, sem pisar
em terra firme. O corpo sente falta. “Doem as pernas, o corpo. O
corpo fica pesado. Vai para Boa Vista para passear. Às vezes a
gente só parado aqui. Dói. Tem que andar, se movimentar. Os pés
ficam até duros”, conta um morador.
O que não é barco, tudo aquilo que não flutua, tem
que ser construído sobre palafitas: casa, empresa, escola. Nos
degraus da escada, que no tempo de seca conduz à entrada da
casa, as ovas de caracol - segundo a crença popular - marcam até
onde o nível da água vai subir na cheia.
Sem quintal para ciscar, as galinhas vão para a
copa das árvores, entre as folhagens, se escondem do ataque de
gaviões. É também nas árvores e arbustos que as cobras - como a
venenosa papagaia - se abrigam das enchentes.
Os búfalos têm que pastar nas áreas alagadas e
nessa época se alimentam de plantas aquáticas. A chuva vai e
volta. As águas sobem mais ainda. Francinei luta para salvar o
que restou do sítio. Ele e os filhos levam mais de uma hora para
embarcar dois bois e três cavalos no espaço apertado do barco.
A correnteza do rio balança o horizonte. O barco
atravessa o imenso Amazonas em busca de terra firme. Uma cara de
susto, um choro, um monte de doenças para combater. É dia de
vacinação, um raro dia de sol na várzea.
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