Após o confronto entre a polícia e indígenas na região de Bagua, na porção amazônica do Peru, que deixou mais de trinta mortos, governo e manifestantes trocam acusações de intransigência.
Na sexta-feira (5), mais de 30 policiais e indígenas morreram em enfrentamento em Bagua. Índios de toda a região amazônica do Peru estão mobilizados contra decretos do presidente Alan Garcia que permitem a exploração por empresas estrangeiras de madeira e minérios, em especial petróleo, em terras indígenas.
Soldados guardam o corpo do comandande da polícia Miguel Montenegro, morto nos confrontos em Bagua, no Peru. (Foto: AFP)
Os nativos se dizem prejudicados porque as leis permitem a "privatização" das florestas e dos recursos hídricos. O confronto teve início na madrugada de sexta-feira, quando forças policiais tentaram liberar uma estrada que havia sido fechada pelos indígenas. Além dos bloqueios de estradas, os manifestantes já fecharam válvulas de gasodutos e o bloquearam rios para navegação.
Em audiência na Comissão de Defesa do Congresso
nesta segunda-feira (8), o primeiro-ministro peruano Yehude
Simon disse que a presidência fez um “esforço supremo” para
dialogar com os manifestantes. Ele mostrou documentos que
comprovariam que o governo tentou negociar com o líder dos
indígenas, Alberto Pizango. No entanto, segundo Simon, este foi
intransigente e demonstrou não querer solucionar o problema.
Pizango tem ordem de prisão decretada e está foragido. A
organização que ele lidera, Associação Interétnica de
Desenvolvimento da Selva Peruana (Aidesep), afirma que ele
continua no Peru, mas autoridades apontam que ele poderia ter
deixado o país.
No começo de maio, em
entrevista exclusiva ao Globo Amazônia
, Pizango antevia a possibilidade de confrontos violentos.
“Consideramos o governo de Alan García responsável pelas
consequências que tenham suas provocações”, disse, na época.
"Este governo manchou de sangue o nosso
Peru", disse nesta segunda-feira uma outra representante da
Aidesep, Daysi Zapata, em entrevista coletiva. "Jamais
daremos um passo atrás. Não perdemos esta luta”, acrescentou.
A possibilidade de novos confrontos existe,
segundo informações da agência AFP, já que a rodovia entre
Yurimaguas e Tarapoto (a 900 quilômetros ao norte de Lima)
continua ocupada por cerca de 3 mil índios. De acordo com a
imprensa local, policiais e manifestantes negociaram nesta
segunda-feira o desbloqueio parcial da estrada.
Campos de petróleo
Manifestantes também ocuparam neste domingo
dois poços de petróleo da companhia argentina Pluspetrol na
Amazônia peruana.
O número de mortos em Bagua não é certo, já que o
governo fala de nove índios e 22 policiais mortos, mas o
movimento indígena alega ter tido cerca de 30 baixas. Uma ONG
chegou a denunciar a existência, negada pelo governo, de uma
vala comum onde a polícia teria atirado corpos de manifestantes.
Na imprensa nacional e internacional comenta-se o
impacto político do confronto com maior número de mortos no Peru
desde o fim das ações do grupo Sendero Luminoso, que pode ter
jogado o presidente Alan García em sua pior crise.
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