Desde o início do século passado, a Igreja Católica se esforçou para converter os índios de São Gabriel da Cachoeira, região remota do estado do Amazonas. Padres salesianos foram proibindo tudo: malocas coletivas, rituais, línguas.
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A obsessão católica pela conversão dos
“selvagens”, no entanto, foi diminuindo com o tempo. A ideia de
que há almas pagãs vagando na floresta e que elas precisam ser
salvas a qualquer custo já não é mais aceita pela direção da
Igreja.
O novo chefe da Diocese de São Gabriel chegou ao
local já com a fama de ser o bispo dos índios.
A ordenação episcopal foi uma festa indígena: o
gaúcho Edson Damian foi benzido e ganhou um cocar. Rezou
a primeira missa numa igreja em forma de maloca e veio disposto
a rever o conceito de conversão.
“São os índios, que estão vivendo como viviam os
primeiros cristãos, que tinham tudo em comum. Nós é que temos
que nos converter a eles”, defende Damian. Para ele, é papel da
Igreja defender os direitos dos índios. “O índio sem terra é o
índio que perdeu toda a sua referência cultural e religiosa”,
argumenta.
Ex-padre, o índio tukano Domingos Sávio Barreto
foi um dos alunos das imensas missões católicas construídas no
meio da selva numa época em que o acesso era muito mais
difícil. “Nos ensinaram dizendo: o que vocês têm não presta,
não serve”, relembra.
“Disseram que a nossa cultura era coisa do
demônio, e a partir daí a nossa tradição, os nossos benzimentos
sumiram com o passar do tempo”, conta outro tukano, Damásio
Azevedo.
A nudez dos índios era considerada obscena. O
índio Horácio Moreira, como todos os de sua aldeia, também
chegou nu ao colégio, há mais de 50 anos. Mas os padres o
transformaram no primeiro alfaiate indígena da Amazônia.
Para Domingos Barreto, alguns evangélicos estão
fazendo agora o que os católicos já fizeram antes.
“Você tem que ensinar, que eles não conhecem o que
está escrito na Palavra, que tem um Deus que criou eles, que não
é deus sol, que não é deus lua, que é um Deus que está escrito
na Bíblia”, prega o pastor da Assembléia de Deus Wellington da
Silva Monteiro.
Barreto, no entanto, defende a religião
tradicional de seu povo: “Deus é a natureza, são as árvores, a
própria caça, a própria pescaria”.
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