Samuel Oliveira, da Embrapa Rondônia, discorda da maioria das leis ambientais. Especialista em economia agrária, ele defende o uso controlado do desmatamento para trazer desenvolvimento à região amazônica, e acha que a maior parte das decisões ambientais, como a criação de novas leis e de reservas, não leva em consideração as realidades regionais.
saiba mais
O ponto de vista do cientista vai no sentido contrário do que
defendem os ambientalistas, mas faz eco ao pensamento de grande
parte dos produtores rurais e políticos da Amazônia. “A
preservação ambiental é necessária, mas a ocupação humana é
imprescindível para haver desenvolvimento”, defende Samuel.
Polêmico, o pesquisador cobra dos outros estados
brasileiros a preservação que se exige na Amazônia. “Por que a
gente não faz um rateio? Suponhamos que todos os biomas do
Brasil deveriam ser preservados em 50% da sua cobertura
original. São Paulo quer fazer? O Paraná quer fazer? Rio de
Janeiro quer fazer?”, questiona.
Confira, abaixo, os melhores trechos da conversa
que a reportagem do Globo Amazônia teve com
Samuel Oliveira em Porto Velho:
Globo Amazônia - Ainda é necessário desmatar para
desenvolver a Amazônia?
Samuel Oliveira - Não existe modelo de
desenvolvimento em larga escala no mundo que implique em
preservação da cobertura vegetal original. Então, quando você
fala “pare de desmatar”, [significa] “pare de desenvolver
aquelas regiões”.
-
Não existe modelo de desenvolvimento em larga escala no mundo que implique em preservação da cobertura vegetal original."
Por outro lado, existe abuso na ocupação da Amazônia. A gente não
pode admitir essa vasta área que a gente tem aqui de pastagem
degradada, por exemplo. Por que essa área não é mais bem
utilizada antes de autorizar a abertura de novas áreas?
O próprio ministro da Agricultura, Reinhold Stephanes,
defende o “desmatamento zero”, que seria a utilização de
somente áreas já abertas para a expansão agropecuária. Isso
não é razoável?
Nós defendemos a racionalidade do uso dos recursos
naturais, mas se instituirmos o “desmatamento zero”, como será
no futuro? Não nos interessará mais ocupar esse país que é
nosso, desenvolvê-lo de maneira harmoniosa?
Hoje, a legislação ambiental exige que proprietários de
terra na Amazônia preservem pelo menos 50% de sua área.
Muitos agropecuaristas reclamam que é muito. O que você acha?
Do ponto de vista técnico, seria razoável analisar
caso por caso. Hoje a lei nivela todo mundo: é 50 ou 80% que
você não pode desmatar. Tem gente que desmatou 10% e não tinha
que desmatar nem cinco, pois não está sendo competente para usar
nem do ponto de vista ambiental nem do ponto de vista produtivo.
Por outro lado, há outros casos de pessoas que já
abriram 50%, tem área de pastagem sendo manejada, e as condições
dessa propriedade permitiriam que se abrisse até mais área. Por
que proibir, nesse caso?
Então, uma coisa é certa: é necessária uma ampla
campanha de melhor utilização de recursos naturais na Amazônia.
Mas não é só na Amazônia, não. É no Brasil inteiro. E aliás, se
você citar uma região com problemas na Amazônia, existem três,
quatro, cinco, fora dela, e as pessoas não abrem os olhos para
isso.
Uma das obras mais polêmicas da Amazônia é a
reconstrução da rodovia BR-319, que liga Porto Velho a
Manaus. Os ambientalistas argumentam que a reforma da
estrada, prevista no PAC, pode trazer muita devastação. Essa
rodovia é mesmo necessária?
A construção da BR-319 é imprescindível. Quem
gostaria de morar isolado, sem estrada asfaltada? É como morar
em uma ilha.
Até alguns anos atrás, na divisão política do
Brasil elaborada pelo IBGE, Porto Velho era um centro
subordinado a Manaus. Hoje, não é mais, assim como Rio Branco. A
capital acreana se subordina a Porto Velho, que se liga a
Brasília e a São Paulo. Ou seja, a cidade de Manaus está muito
prejudicada quanto à influência que poderia exercer em seu
entorno por falta de ligação.
Mas a estrada não pode abrir caminho para uma ocupação
desordenada, mesmo com a tal “blindagem ecológica”, que
prevê a instalação de parques e reservas ao longo da estrada?
-
Se você olhar a história do Brasil, verá que é muito difícil bloquear a ocupação humana entre duas capitais como Porto Velho e Manaus."
Certamente, abrindo a estrada vamos viabilizar o acesso à terra.
Não conheço todo o potencial produtivo dessa região, mas para
estabelecer essas áreas de conservação se deveria considerar o
potencial agrícola dessas áreas.
Mas, se você olhar a história do Brasil, verá que
é muito difícil bloquear a ocupação humana entre duas capitais
como Porto Velho e Manaus. Isso vai acontecer. Mas é necessário
fazer isso de uma maneira mais ordenada e com menor impacto
ambiental do que aconteceu no passado.
Desmatamentos, queimadas e notícias sobre toda a Amazônia
Legal podem ser encontradas no mapa interativo Amazônia.vc,
que também permite a internautas protestar contra a
destruição da floresta.
Saiba como utilizar o mapa
.
Siga o Globo Amazônia no Twitter
Leia mais notícias de Amazônia
Veja as últimas notícias e proteste contra queimadas e desmatamento.