Em pouco tempo, arqueólogos poderão trabalhar por computador,
dentro de uma sala fechada, com ar condicionado. Essa é a aposta
do cientista Alceu Ranzi, que tem usado imagens de satélite do
Google Earth para descobrir marcas gigantes, conhecidas como
geoglifos, deixadas por povos ancestrais que viveram na Amazônia
há pelo menos 700 anos.
Os últimos desenhos foram encontrados nas
proximidades da cidade de Boca do Acre, no Amazonas. São cinco
conjuntos de formas geométricas, com círculos, quadrados e
linhas, que chegam a medir mais de um quilômetro de um extremo
ao outro.
De tão grandes, os geoglifos recém descobertos só
são perceptíveis do alto. “Não se vê no campo. Há uma diferença
na cor da grama, mas é muito tênue. Se não houvesse imagens de
satélite, não haveria a menor condição [de fazer a descoberta]”,
conta o arqueólogo, que é pesquisador da Universidade Federal do
Acre (UFAC).
Até agora, já são cerca de 300 geoglifos
registrados no Acre e no Amazonas. Ranzi explica que já sabia da
existência dos desenhos de Boca do Acre desde 2006, mas só
queria divulgar a notícia por meio de uma revista científica. No
início do mês, ele assinou com dois colegas um artigo na
“Antiquity”, publicação especializada em arqueologia, em que
descreve as cinco marcas encontradas no Amazonas.
Mistério
Desde a década de 1970, quando cientistas
perceberam a existência dos geoglifos brasileiros, essas formas
geométricas intrigam arqueólogos. Até agora, não se sabe
exatamente para que serviam, mas dão a pista de que ali, no meio
da floresta, poderiam existir civilizações mais complexas e
numerosas do que se imagina. Para desenhar geoglifos, eles
tinham que ter conhecimentos de geometria e serem capazes de
realizar grandes obras.
Geoglifo é cortado por estrada na fronteira do Acre com o Amazonas. Marcas deixadas por antepassadas só foram descobertas na década de 1970. Por serem difíceis de ver do chão, a maioria delas passou despercebida pelos moradores da região. (Foto: Diego Gurgel-Projeto Geoglifos/Divulgação)
Tanto no Acre quanto no Amazonas, as marcas só foram descobertas
por causa do desmatamento, que “limpou” o terreno e tornou os
desenhos visíveis. Como as estruturas são profundas – os sulcos
chegam a ter 12 metros de largura e quatro de profundidade -,
acredita-se que ali, pelo menos sobre os geoglifos, houve um
período em que não havia floresta.
“Será que era realmente floresta [quando se
construiu os desenhos] ou eles ocuparam essa área em um momento
de crise climática, como essa de 2005?”, conjectura Ranzi.
Ainda não se sabe qual era a função das marcas
profundas cavadas no chão, mas especialistas imaginam que as
formas geométricas não foram desenhadas à toa, e tinham algum
significado. Entre as hipóteses sobre as funções dos geoglifos
estão a de que eles serviam como fortificações ou como templo religioso.
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