Após o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC, na sigla em inglês) admitir que errou em sua avaliação de que as geleiras do Himalaia desapareceriam até 2035 por causa do aquecimento global, uma nova polêmica sobre o órgão da ONU, desta vez relacionada a um dado sobre a floresta amazônica, está instalada.
Em seu quarto relatório, lançado em 2007, o IPCC
afirma que “até 40% das florestas amazônicas podem reagir
drasticamente até mesmo a uma leve redução na precipitação, o
que significa que a vegetação tropical, a hidrologia e o clima
na América do Sul poderiam mudar muito rapidamente a outro
estado permanente, não necessariamente produzindo mudanças
graduais entre a situação presente e futura”.
Chuva sobre a Amazônia. Segundo o pesquisador Daniel Nepstad, a floresta é de fato sensível ao regime pluviométrico, mas o IPCC deveria ter usado fontes primárias em seu relatório para tratar do assunto. (Foto: Divulgação/Expedição Rios Voadores)
“É mais provável que as florestas serão substituídas por ecossistemas que tenham maior resistência a estresses múltiplos, causados pelo aumento de temperatura, secas e queimadas, como as savanas tropicais”, prossegue o texto.
O trecho virou motivo de ataques contra o IPCC porque a
referência bibliográfica usada para justificá-lo é um relatório
da organização de defesa do meio ambiente WWF, e não um artigo
científico nos moldes tradicionais. Os autores do relatório do
WWF são um analista da própria ONG, Peter Moore, e o jornalista
Andrew Rowell, que já teria trabalhado para outras organizações
ambientalistas.
Críticas
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O jornal britânico “Telegraph”, por exemplo, publicou coluna de Chritopher Booker, conhecido por questionar se as mudanças climáticas são fruto da ação humana, afirmando que “não há maior equívoco sobre o IPCC do que achar que ele é um órgão imparcial que compara evidências científicas a favor e contra o aquecimento global”.
O diário “The Times”, também britânico, publicou reportagem
afirmando que o relatório do IPCC “era baseado numa afirmação
infundada de militantes verdes que têm pequeno conhecimento
científico”.
O jornal destaca que o material do WWF, por sua
vez, se baseava num artigo da revista “Nature”, que não tratava
especificamente do regime de chuvas na Amazônia, mas dos efeitos
da ação do homem, como o desmatamento e as queimadas, sobre a floresta.
Fonte primária
O pesquisador Daniel Nepstad após apresentação na Conferência do Clima, em Copenhague. (Foto: Dennis Barbosa/G1)
O autor do artigo da “Nature”, Daniel Nepstad, afirmou que a declaração do IPCC sobre a floresta amazônica é correta, mas que o material produzido por Rowell e Moore deixou de fora “algumas citacões importantes”.
Ele admitiu que o painel da ONU “deveria ter citado o relatório
primário”, ou seja, seu artigo. Ainda assim, apontou que, de
forma geral, o WWF, para quem também já produziu pesquisa, tem
rigor científico na verificação de seus relatórios.
Na opinião de Nepstad, os ataques ao painel da ONU
são uma “descaracterização do que é um erro científico”.
“Estão querendo soprar em cima dessa brasa para caracterizar algo mais sistemático”, disse ao Globo Amazônia, classificando como “péssima” a cobertura jornalística sobre o assunto. “Acho que ninguém imaginou que o IPCC seria um processo perfeito. São 4 mil pesquisadores (organizados em grupos de trabalho do painel) que não ganham para isso”, observou.
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