Pesquisadores ouvidos pelo Globo Amazônia não
vêem com bons olhos o plano de pavimentação da rodovia BR-319,
que liga Porto Velho (RO) a Manaus (AM) e atualmente é
intransitável na maior parte de sua extensão.
Philip Fearnside, pesquisador do Instituto
Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), dedicou seu espaço na
Conferência Internacional Amazônia em Perspectiva, que acontece
esta semana em Manaus, a apontar os problemas que a estrada pode
trazer.
Segundo ele, a rodovia não interessa sequer à
indústria concentrada na capital amazonense, que pode escoar sua
produção em navios. "Seria mais interessante ampliar a
capacidade dos portos da cidade", observa o cientista.
"Os portos são o grande gargalo, pois são usados para
exportações e não sobra capacidade para manda para o mercado
interno."
Para Fearnside, a abertura da BR-319 é representa
um grave risco: "Estão ligando a Amazônia Central com o
arco do desmatamento. Em Manaus quase não tem desmatamento, mas
a estrada pode mudar completamente a situação", critica.
"Usam como exemplo o parque de Yellowstone, que se conserva
mesmo sendo cortado por estradas. Até o quadro mudar para ser
parecido com Yellowstone, não vai mais haver floresta", diz
Fearnside.
Alexander Pfaff, da Duke University, nos EUA,
verificou que a abertura de uma rodovia com tráfego pesado em
meio à selva causa mais danos que em zonas já desenvolvidas, com
outras estradas próximas. Para chegar a essa conclusão Pfaff
analisou imagens de toda a Amazônia e também de outras áreas de
floresta, como a região sul do México. "No começo, quando a
estrada é aberta (em lugares remotos), não há muita destruição
porque não há gente para promovê-la, mas com o tempo ela se
intensifica", comenta o pesquisador.
Quando já há agricultura e infra-estrutura viária
próxima, o impacto sobre a floresta que ainda subsiste é menor.
"Por isso seria mais interessante intensificar a atividade
em regiões que já têm algum desenvolvimento", comenta.
"Infelizmente aqui tudo que é desenvolvimento
é também desmatamento" preocupa-se Regina Luizão, também
pesquisadora do Inpa. "Um dos nossos projetos (do Inpa)
está avaliando especificamente a BR-319, sob todos os aspectos.
Estamos muito preocupados, porque a biodiversidade de um lugar
para outro pode mudar muito", observa, explicando que na
área afetada pela rodovia há espécies que só ocorrem ali, e que
podem ser negativamente afetadas pela obra. "Já sabemos que
o asfaltamento vai trazer muitos danos", diz.
Paulo Artaxo, professor do Instituto de Física da
Universidade de São Paulo e especialista em aquecimento global,
condena a obra e aposta numa alternativa: "A construção de
uma ferrovia seria um bom exemplo de como desenvolver sem
desmatar. Não vai faltar banco internacional para financiar uma
obra sustentável."
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