Empurrados pela exploração ilegal de madeira na Amazônia peruana, índios que nunca tiveram contato com o mundo externo estão fugindo para o Brasil. A denúncia é feita em relatório lançado nesta terça-feira (17) pela ONG Survival International, que acompanha a situação dos chamados “índios isolados” no mundo.
Foto aérea mostra malocas dos índios peruanos que fogem para o Brasil. (Foto: Gleylson Miranda/Funai)
O problema acontece nas bordas do estado do Acre, no extremo oeste brasileiro. Para confirmar a denúncia feita pela Survival, o Globo Amazônia entrevistou o pesquisador da Funai José Carlos Meirelles, que há 20 anos vive na região estudando tribos isoladas. Ele confirma as informações divulgadas pela ONG inglesa.
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“A evidência mais forte de que esses índios foram expulsos de
suas terras é que eles estão roubando mudas de banana e de
mandioca da gente. Isso significa que eles saíram correndo, e
não têm nem banana para plantar, porque estão com medo de ir
buscar as mudas. Eles estão sem o que comer”, alerta o
indigenista.
A exploração madeireira ocorre principalmente para
a retirada do mogno. A madeira, uma das mais valiosas da
Amazônia, é proibida de ser cortada no Brasil porque a planta
corre risco de extinção. Para Meirelles, a única solução para o
caso é o fim do consumo dessa madeira nobre.
“Enquanto houver gente disposta a pagar uma
fortuna pela madeira, vai haver gente tirando mogno de onde for.
O mundo precisa saber que cada americano que se enterra em um
caixão de mogno, junto vai uns três índios isolados”, avisa.
Madeira boiando
Como a região é tomada por florestas, o sertanista precisa
trabalhar com evidências para descobrir o que ocorre dentro da
mata. Recentemente, objetos boiando no rio mostraram que a
atividade madeireira ocorre a todo vapor na região: foram
encontradas várias pranchas de mogno, além de galões de óleo.
As marcas da chegada dos índios isolados peruanos
também são muitas. Meirelles coleciona flechas utilizadas por
essas tribos, e já foi alvo de algumas delas. “Eles não sabem
distinguir a gente dos madeireiros”, conta.
Risco de conflitos
Do lado brasileiro, há pelo menos três tribos que vivem sem
contato. A região é protegida por reservas, mas Meirelles teme
que ocorra um conflito entre os próprios indígenas isolados, já
que os peruanos supostamente não reconheceriam as tribos
brasileiras.
Em seu relatório, a Survival International pede ao
governo peruano que expulse as madeireiras e não permita que
ninguém entre na área para explorar recursos naturais, pois os
índios correm risco de extinção, e podem morrer de doenças
comuns, como a gripe, se entrarem em contato com brancos.
Segundo a ONG, um desses desastrosos encontros
ocorreu em meados dos anos 1990, quando a tribo peruana
Murunahua foi invadida por cortadores de mogno, e as doenças
trazidas mataram pelo menos metade dos membros da comunidade.

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