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07/04/09 - 20h36 - Atualizado em 08/04/09 - 15h36

Famílias vivem abandonadas em estrada da Amazônia

Cidades ficam isoladas por causa das más condições da BR-163.
No trecho asfaltado da rodovia, em MT, agricultura traz prosperidade.

Do Globo Amazônia Com informações do Jornal Nacional

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Quando aceitou o convite do governo militar para ajudar a colonizar a Amazônia, na divisa de Mato Grosso com o Pará, o gaúcho Ladislau Juppen achou que estava diante da grande chance da vida. Não demorou para se desiludir.

 

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“O pessoal trouxe e largou a gente assim, ao Deus dará”, afirma. Sua esposa também o passou muito medo. “Logo que a gente chegou, a casa não tinha porta, não tinha janela, era tudo mato, as onças vinham gritar em volta de casa”, lembra Teresa Juppen.

Era início dos anos 1980. A família Juppen persistiu, desmatou metade do terreno, como determinou o governo, e plantou feijão, arroz e milho. O problema é que não havia pra quem vender, e Ladislau teve que buscar o sustento no garimpo, sofrendo com as doenças. “Para te falar a verdade, eu passei mais de cem malárias”, relata.

 

Dos 129 colonos que vieram com Ladislau, apenas sete ficaram. Muitos venderam o sítio pelo preço da passagem de volta. 

Promessas esquecidas

Na viagem de 20 dias que a equipe da TV Globo realizou na BR-163, de Cuiabá, em Mato Grosso, a Santarém, no Pará, O mesmo cenário se repetiu em dezenas de assentamentos. A situação é pior onde a estrada abandonada não é nem sombra da rodovia que prometeu levar o desenvolvimento à região.

 

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Castelo dos Sonhos, no Pará, é exemplo dessa decepção. A vila é um distrito da cidade de Altamira, que fica a 1.000 km de distância.

Na escola pública de Castelo dos Sonhos, parte dos professores é emprestada de Belém e Altamira. Eles ensinam durante 50 dias as matérias do ano inteiro e vão embora. “Só temos um livro de biologia pra o ensino médio. Falta para todas as outras disciplinas", diz a diretora da escola. 

Prosperidade agrícola

Em Mato Grosso, onde o asfalto chegou, a realidade é bem diferente. A lavoura tomou o lugar da floresta, mas a agricultura fez cidades prosperarem. 

 

O município de Sorriso, por exemplo, é o maior produtor de soja do mundo. São 30 milhões de sacas por ano. Já em Lucas do Rio Verde, cidade vizinha, o ensino é modelo. As escolas municipais têm piscina, e as crianças que moram longe, em assentamentos, passam o dia todo lá. Além do café da manhã, almoço e lanche, jantam antes de voltar pra casa.

Durante quatro anos, de 2004 a 2007, Lucas do Rio Verde ganhou o prêmio gestor eficiente da merenda escolar, dado pelo Ministério da Educação. Lá eles produzem praticamente tudo o que consomem.

Na esteira do sucesso do município, há pessoas que enriqueceram. Ex-sem-terra, Ildo Romancini, comemora as conquistas. Chegou há 27 anos, hoje vive da agricultura e é dono de supermercado. A mulher dele, Nilva Romancini, divide a vida na cidade antes e depois do asfalto da BR-163. “Quando fui ter minha filha em Sorriso, eu fui de carona numa carreta. Chegamos lá e tive que me lavar antes de me consultar, porque tava toda cheia de poeira”, conta.

No lado bem-sucedido da BR-163 também vive uma segunda geração da família Juppen, aquela que veio do Rio Grande do Sul. Jane Juppen se casou com Vilmar, tiveram três filhas e vivem hoje num projeto de assentamento. Cultivam mel de abelha, frutas e extraem sementes da floresta. “Agora nós já temos uma terra, então eles [os filhos do casal] não precisam mais acampar pra ganhar a terra, que elas já têm”, comemora Jane.

Na mesma rodovia, a 300 km de distância, o patriarca da família Juppen se alegra com as conquistas da filha e das netas. Com a esperança de que um dia o asfalto ainda chegue na parte abandonada da BR-163, ele lamenta a natureza destruída por um projeto que ficou no meio do caminho.

“Largaram o pessoal e não impuseram a lei, né? Ninguém falou nada, então o povo foi derrubando assim a torto e a direito. Dá tristeza olhar esses rios, lembrar como era antigamente e ver hoje como é que está”, lamenta Ladislau Juppen.

 

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