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12/04/09 - 23h53 - Atualizado em 13/04/09 - 01h26

Transgarimpeira sobrevive à escassez de ouro com saudades dos velhos tempos

Nos anos 80, milhares de quilos ao mês eram retirados dessa região do PA.
Hoje o ouro diminuiu, mas ainda é o principal meio de sobrevivência.

Do Globo Amazônia, com informações do Fantástico

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No distrito de Moraes Almeida, no Pará, a época de ouro farto deu lugar à extração ilegal de madeira. "Eles trabalham clandestinos pra sobreviver. Às vezes trabalham à noite, trabalham escondido, né? Se não fosse os madeireiros aqui era muito pior", comenta o mecânico Francisco Almeida.

O local já foi um dos pontos mais movimentados da BR-163, rodovia que liga Cuiabá a Santarém. Era o principal ponto de abastecimento dos garimpos de ouro que se espalhavam pelo Alto Tapajós. Até o fim da década de 80, a rodovia na altura de Moraes Almeida era usada como pista de pouso e chegava a receber mais de cem voos por dia.

 

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Depois foi aberta a Transgarimpeira, que permitiu que os garimpos fossem abastecidos por terra. Com isso, aviões deixaram de pousar por ali. Um sobrevoo da região mostra que a exploração do ouro fez mal ao meio ambiente. O Rio Novo ficou marrom de tão poluído. O Rio Jamanxim, que passa ao lado, é bem mais claro porque não teve garimpo. 


Do alto, ainda se avitam pequenos garimpos em atividade. Mas onde ficava Ourolândia, no km 140 da Transgarimpeira, hoje só resta a antiga casinha de apoio na pista de pouso abandonada. Nos tempos áureos, ali eram vendidos 700 mil litros de óleo diesel por ano para movimentar os motores dos garimpos."Na época eu voava de comissão, ganhava em média trezentos gramas [de ouro] por dia de comissão", relembra saudoso o piloto de avião Antônio dos Santos.

 

 

Creporizinho

 


Creporizinho é outro lugar que não é nem sombra do que já foi no passado. Na década de 80, auge da vila, cinco mil dragas retiravam duzentos quilos de ouro por dia. Atualmente, não passam de cinco quilos."Era festa todo dia, muita cerveja, muita cachaça, muita gente. Você quer ter uma idéia, aqui tinha 160 boates", conta José Rodrigues, que viveu aqueles dias áureos. Movimento na Transgarimpeira só há em Creporizão, que tenta sobreviver à escassez de ouro.

Segundo o subprefeito do distrito, mais de 70% dos moradores não têm registro de nascimento. Mas há quem veja em Creporizão o paraíso. A professora Núbia deixou Santarém, umas das maiores cidades do Pará para morar aqui com seus três filhos e o marido, que conserta motores para garimpar. "Não temos assaltos, não temos ladrões, então não existe lugar melhor pra se viver do que aqui", argumenta.

Em Creporizão há cinco lojas que compram ouro. Por mês, esses estabelecimentos movimentam 90 quilos do metal precioso, que virou moeda corrente para comprar outros bens. "Pra comprar óleo diesel, arroz, gás... todo esse tipo de coisas pra vender aí no garimpo. Tudo em ouro", diz José Deosdete da Silva, comerciante local.

Ouro por aqui é uma fixação e vale tudo para consegui-lo. No Rio Crepori, onde não há mais peixes por causa do excesso de mercúrio usado para separar o ouro, homens arriscam a vida diariamente.

O trabalho mais perigoso no garimpo é o do mergulhador. Ele fica três horas debaixo d'água, numa escuridão total. Com uma mangueira ele suga a terra, que é peneirada em busca do ouro. Essa técnica forma barrancos no fundo do rio. "Já fui soterrado duas vezes", conta Domingos Benício Alves. "Outra balsa me salvou".

Nas dragas há um sistema de sucção que substitui o mergulhador, mas ainda assim a vida não é fácil, pois as pessoas passam meses nelas sem pisar em terra seca.

Luiz Nascimento já viu muito ouro, mas não poupou nada. Com o que gastou tudo? "A 'mulhezada'", diverte-se. É por causa de clientes como Luiz que ainda existem sete cabarés em Creporizão. Garimpeiros são bem mais "generosos", garante uma prostituta local. Com alguns deles, "acontece de passar até três dias", conta.

Mas o tempo de aventuras do garimpeiro Luiz está com os dias contados, pois o ouro da superfície da terra e no leito dos rios está acabando. Depois, só haverá espaço para as grandes empresas, com seus altos investimentos para tirar o minério de 80 ou 100 metros de profundidade.

 

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