No distrito de Moraes Almeida, no Pará, a época de ouro farto deu
lugar à extração ilegal de madeira. "Eles trabalham
clandestinos pra sobreviver. Às vezes trabalham à noite,
trabalham escondido, né? Se não fosse os madeireiros aqui era
muito pior", comenta o mecânico Francisco Almeida.
O local já foi um dos pontos mais movimentados da
BR-163, rodovia que liga Cuiabá a Santarém. Era o principal
ponto de abastecimento dos garimpos de ouro que se espalhavam
pelo Alto Tapajós. Até o fim da década de 80, a rodovia na
altura de Moraes Almeida era usada como pista de pouso e chegava
a receber mais de cem voos por dia.
Depois foi aberta a Transgarimpeira, que permitiu
que os garimpos fossem abastecidos por terra. Com isso, aviões
deixaram de pousar por ali. Um sobrevoo da região mostra que a
exploração do ouro fez mal ao meio ambiente. O Rio Novo ficou
marrom de tão poluído. O Rio Jamanxim, que passa ao lado, é bem
mais claro porque não teve garimpo.
Do alto, ainda se avitam pequenos garimpos em
atividade. Mas onde ficava Ourolândia, no km 140 da
Transgarimpeira, hoje só resta a antiga casinha de apoio na
pista de pouso abandonada. Nos tempos áureos, ali eram vendidos
700 mil litros de óleo diesel por ano para movimentar os motores
dos garimpos."Na época eu voava de comissão, ganhava em
média trezentos gramas [de ouro] por dia de comissão",
relembra saudoso o piloto de avião Antônio dos Santos.
Creporizinho
Creporizinho é outro lugar que não é nem sombra do
que já foi no passado. Na década de 80, auge da vila, cinco mil
dragas retiravam duzentos quilos de ouro por dia. Atualmente,
não passam de cinco quilos."Era festa todo dia, muita
cerveja, muita cachaça, muita gente. Você quer ter uma idéia,
aqui tinha 160 boates", conta José Rodrigues, que viveu
aqueles dias áureos. Movimento na Transgarimpeira só há em
Creporizão, que tenta sobreviver à escassez de ouro.
Segundo o subprefeito do distrito, mais de 70% dos
moradores não têm registro de nascimento. Mas há quem veja em
Creporizão o paraíso. A professora Núbia deixou Santarém, umas
das maiores cidades do Pará para morar aqui com seus três filhos
e o marido, que conserta motores para garimpar. "Não temos
assaltos, não temos ladrões, então não existe lugar melhor pra
se viver do que aqui", argumenta.
Em Creporizão há cinco lojas que compram ouro. Por
mês, esses estabelecimentos movimentam 90 quilos do metal
precioso, que virou moeda corrente para comprar outros bens.
"Pra comprar óleo diesel, arroz, gás... todo esse tipo de
coisas pra vender aí no garimpo. Tudo em ouro", diz José
Deosdete da Silva, comerciante local.
Ouro por aqui é uma fixação e vale tudo para
consegui-lo. No Rio Crepori, onde não há mais peixes por causa
do excesso de mercúrio usado para separar o ouro, homens
arriscam a vida diariamente.
O trabalho mais perigoso no garimpo é o do
mergulhador. Ele fica três horas debaixo d'água, numa
escuridão total. Com uma mangueira ele suga a terra, que é
peneirada em busca do ouro. Essa técnica forma barrancos no
fundo do rio. "Já fui soterrado duas vezes", conta
Domingos Benício Alves. "Outra balsa me salvou".
Nas dragas há um sistema de sucção que substitui o
mergulhador, mas ainda assim a vida não é fácil, pois as pessoas
passam meses nelas sem pisar em terra seca.
Luiz Nascimento já viu muito ouro, mas não poupou
nada. Com o que gastou tudo? "A
'mulhezada'", diverte-se. É por causa de clientes
como Luiz que ainda existem sete cabarés em Creporizão.
Garimpeiros são bem mais "generosos", garante uma
prostituta local. Com alguns deles, "acontece de passar até
três dias", conta.
Mas o tempo de aventuras do garimpeiro Luiz está
com os dias contados, pois o ouro da superfície da terra e no
leito dos rios está acabando. Depois, só haverá espaço para as
grandes empresas, com seus altos investimentos para tirar o
minério de 80 ou 100 metros de profundidade.

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