O diretor americano Daniel Junge de câmera em punho. (Foto: divulgação)
A reação de surpresa do público brasileiro ao documentário
‘Mataram Irmã Dorothy’ (clique
aqui para ler resenha), que estreia nesta sexta-feira
(17) nos cinemas, surpreendeu o americano Daniel Junge.
O diretor acreditava que os polêmicos julgamentos
mostrados no filme pudessem ser considerados "normais"
pela plateia nacional, mas descobriu que os brasileiros ficavam
até mais chocados que os americanos com o desenrolar dos
processos contra os acusados de matar a missionária. Em
entrevista ao Globo Amazônia, dos EUA, por
telefone, o diretor fala das filmagens do documentário e de como
ele foi recebido mundo afora.
Por que decidiu usar imagens tão fortes como as da irmã
Dorothy morta e do sangue dela no necrotério?
É difícil, eu sei. Quando você vai a uma igreja e
vê um crucifixo, há um motivo para aquilo ser mostrado. Há um
motivo para se mostrar a violência. Acho importante que se veja
quão violento e horrível foi esse crime.
Achamos que os julgamentos atingiram o suficiente para que
contássemos a história. Tínhamos que parar em algum ponto, parar
de trabalhar e gastar dinheiro. Achamos que tínhamos o
suficiente para contar essa história. Sabíamos que ela
continuaria, mas não com tantas voltas como aconteceu.
Houve algum tipo de pressão para não fazer o filme
enquanto estava no Brasil?
Houve um momento no julgamento do Bida em que foi
mostrada uma reportagem de TV. Usaram um vídeo feito
ilegalmente. E porque era ilegal, nos acusaram de fornecer este
vídeo. Mas foi a única pressão que sentimos. Fomos muito felizes
de mostrar o filme ao redor do mundo sem sofrer nenhum tipo de
pressão.
E durante as filmagens, não sofreram algum tipo de ameaça?
Bem, demorou 30 anos para que matassem uma
senhora. Então não sentimos nenhum perigo. Mas não sei... Talvez
estivéssemos muito ocupados filmando para perceber qualquer tipo
de ameaça.
Sentiu uma reação muito diferente no público brasileiro em relação ao de outros países ao verem o seu documentário?
Exibimos o filme nos EUA e a reação aos advogados
de defesa Américo Leal e Eduardo Imbiriba causou muita surpresa.
Mas me surpreendi quando levamos o filme ao Brasil e os
brasileiros ficaram ainda mais surpresos com as coisas que
conseguimos filmar no tribunal. Achei que talvez aquilo seria
percebido pelos brasileiros como algo normal. Foi revelador para
mim.
Como você conseguiu fazer os advogados de defesa falarem
tão abertamente?
Acho que eles acreditavam que a história havia
sido alvo de sensacionalismo na mídia brasileira. Nós chegamos e
nos apresentamos como produtores internacionais de cinema,
dissemos que queríamos mostrar o lado deles no filme, deixar que
contassem sua história com sua própria voz, sem julgar o que
dissessem. Acho que gostaram disso. Mas faz parte também do
comportamento dos advogados: gostam de ser atores.
Está trabalhando em algum novo projeto?
Sim, estou preparando um filme sobre a eutanásia
para a HBO aqui nos EUA.
O filme termina antes do fim dos julgamentos dos acusados pela morte de Dorothy.

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