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29/04/09 - 07h00 - Atualizado em 29/04/09 - 12h39

Sites estrangeiros vendem insetos brasileiros na internet

Animal amazônico em extinção está entre bichos vendidos.
No Brasil, coleta de insetos da natureza é crime.

Iberê Thenório Do Globo Amazônia, em São Paulo

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Besouro amazônico Macrodontia cervicornis, que está sob risco de extinção, é vendido em site estrangeiro. (Foto: Wikimedia Commons)

Borboletas, besouros, formigas e mariposas brasileiras estão à venda na internet em sites estrangeiros. Os animais, mortos e secos, são oferecidos para colecionadores. Além de insetos, algumas lojas virtuais vendem escorpiões, aranhas e fósseis do mundo todo.


Em um site de Taiwan, um dos insetos oferecidos é o besouro Macrodontia cervicornis, que vive na Amazônia. O animal, que chega a medir 17 cm, está na lista internacional de animais ameaçados de extinção, elaborada pela União Mundial para a Natureza (IUCN). Apesar de o site de vendas informar que o bicho tem origem no Peru, a organização ambientalista diz que o animal também vive no Brasil.


Seis lojas virtuais vendendo animais brasileiros foram encontradas pelo Globo Amazônia. Elas estão localizadas no Canadá, EUA, Itália, França e Taiwan.

 

Foto: Reprodução

Site de Taiwan vende insetos do mundo todo. (Foto: Reprodução)

 

Questionada sobre a origem dos animais, uma loja norte-americana de quadros com borboletas respondeu por e-mail que elas são criadas em fazendas espalhadas pelo mundo, e parte dos animais é solto na natureza. Já um vendedor de um site canadense diz que parte dos animais é capturada, e outra parte é criada. “Tudo dentro da lei”, diz ele.

 

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O responsável pelo site francês afirma que a maioria dos insetos brasileiros vem de fazendas que criam os animais em cativeiro em Santa Catatina. “Alguns outros foram coletados muitos anos atrás, quando não havia leis sobre coleta de insetos. O restante tem origem em criações, a maioria no Japão.”

 

O dono do site de Taiwan, que oferece a maior variedade de animais, foi franco sobre a origem dos insetos. “Sinto muito, mas não sei como são capturados, e se essa captura é legal no Brasil. Eu os compro do Japão”, disse, por e-mail. Dois sites questionados não responderam.

 

Fazendas legalizadas

 

De acordo com o coordenador de operações e fiscalização do Ibama, Roberto Cabral, há fazendas em Santa Catarina autorizadas a criar borboletas para venda, mas a captura na natureza é proibida. “Isso configura caça comercial”, informa. Quem coleta os bichos pode ser punido com detenção de seis meses a um ano, mas a pena pode ser multiplicada por três se os animais forem vendidos.

 

No Brasil, comprar insetos desses sites também é considerado crime, e o comprador está sujeito às mesmas penas de quem vende. No caso dos insetos criados em fazendas, para que o negócio seja feito de forma legal é necessário que o vendedor forneça a nota fiscal no nome do comprador, listando as espécies vendidas e a quantidade. 

 

Para a ONG Renctas, que atua no combate ao tráfico de animais, não importa o tamanho dos bichos ou de que país eles vêm. Se a coleta é feita de forma ilegal, isso irá afetar a biodiversidade. "A caça, a coleta, o transporte e o comércio ilegal de animais silvestres afeta a fauna como um todo. O tráfico de animais silvestres é o terceiro maior comércio ilegal do mundo e os grupos criminosos envolvidos agem em escala internacional, não respeitando as fronteiras entre as nações", diz Marcelo Sathler, representante da organização.

 

Extinção Local

 

Segundo o Livro Vermelho da Fauna Brasileira Ameaçada de Extinção, há 96 insetos brasileiros que correm o risco de desaparecer. A vida dos animais é afetada pelo desmatamento, poluição de rios e uso de agrotóxicos.


Para Cabral, a captura dos insetos pode criar uma extinção local, ou seja, eles deixam de existir em determinado lugar. Quando isso ocorre em várias regiões, o animal acaba desaparecendo por completo.

 

Como exemplo, o funcionário do Ibama cita os insetos que via como criança, e que hoje não existem mais. “Na minha infância, eu via vagalume, louva-a-Deus, esperança e uma borboleta preta e amarela. Hoje, passando no local em que eu cresci, não há mais esses animais. Ocorreu a extinção local. Cada pessoa deve ter a sua gama de animais que visualizava quando criança e que hoje não vê mais em seus bairros.”

 

Acordo internacional

 

Um acordo entre 175 países regulamenta o comércio internacional de animais. Chamado de Cites (Convenção sobre o Comércio Internacional de Espécies da Flora e Fauna Selvagens em Perigo de Extinção), ele estabelece uma lista de seres vivos que precisam de documentação para serem vendidos entre países, além de proibir o comércio de algumas espécies. Na lista, contudo , figuram apenas sete espécies e seis gêneros (grupo com características muito próximas) de insetos.

 

Segundo Cabral, o processo de inclusão de um novo animal é complicado, principalmente se o bicho for entrar na categoria em que a comercialização é rigidamente controlada. “Para as espécies entrarem, é preciso que dois terços dos países aprovem”, informa.

 

Para não estimular o comércio internacional de animais, o endereço dos sites não foi citado nesta notícia.

 

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