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28/05/09 - 15h48 - Atualizado em 28/05/09 - 15h48

'Secretário de Meio Ambiente tem prazo de validade', afirma Valmir Ortega

Chefe da pasta no PA diz que sua saída estava planejada há meses.
Troca ajudaria a diminuir tensão com madeireiros, diz.

Iberê Thenório Do Globo Amazônia, em São Paulo

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Valmir Ortega afirma que setor madeireiro vive crise com falta de matéria-prima. (Foto: Edson Rodrigues/Secom MT)

A próxima sexta-feira (29) será o último dia de Valmir Ortega, chefe da Secretaria de Meio Ambiente do Pará (Sema), no governo de Ana Júlia Carepa (PT). Ele deixa a pasta em um momento tenso, em que estão sendo investigadas fraudes milionárias de seus funcionários na liberação do transporte de madeira ilegal.

Em entrevista exclusiva ao Globo Amazônia, Ortega nega que sua saída esteja ligada a esses problemas, mas revela que o embate entre a Sema e os madeireiros força a troca no comando da secretaria. O secretário afirma, também, que há uma crise no setor de madeira: empresas teriam se expandido graças ao desmatamento ilegal, mas agora não teriam mais matéria-prima para trabalhar, graças a uma maior fiscalização.

Ortega será substituído pelo atual superintendente do Ibama no Pará, Aníbal Picanço. Veja, abaixo, os principais trechos da conversa com o secretário.

Globo Amazônia - Por que você está deixando a Secretaria de Meio Ambiente do Pará?

Valmir Ortega - Eu já havia programado a minha saída para dezembro, pois três anos era um bom tempo para a minha contribuição na secretaria. Mas substituir um secretário em dezembro, em um mês que o governo está sem orçamento, seria um transtorno. Por isso, nos últimos dois meses estudamos a possibilidade de antecipar essa saída. 

 

 

  • Aspas

    [A saída é necessária] para a questão da segurança pessoal do secretário e para que o governo tenha fôlego de repactuar com o setor florestal. "

Mas há outros aspectos. Nesses dois anos e meio temos negociado uma agenda muito tensa com o setor florestal. Isso é fruto da transição que o setor vem passando. Até 2005, tínhamos planos de manejo aprovados em áreas públicas, oferta de madeira grande no mercado, e isso veio caindo. Com a transição [do sistema de autorização para exploração de madeira] do Ibama para a Sema, esse processo se aprofundou, criando um tensionamento muito forte com o setor florestal.

É natural que em um processo desses haja um desgaste do secretário. [A saída é necessária] para a questão da segurança pessoal do secretário e para que o governo tenha fôlego de repactuar com o setor florestal. Como eu brinquei com a governadora [Ana Júlia Carepa], em um ambiente tão tenso como o nosso, o secretário de Meio Ambiente tem prazo de validade.

Não é uma coincidência desagradável sua saída coincidir com a descoberta de um esquema de fraudes na Sema? 

 

  • Aspas

    Estamos há pelo menos um ano e meio com um forte processo de investigação sobre indícios de fraudes."

Não existe a descoberta de um esquema de fraudes, pois estamos há pelo menos um ano e meio com um forte processo de investigação sobre indícios de fraudes no setor florestal. As investigações são conduzidas em forte parceria com o MPE e MPF. Há situação de fraudes que já foram descobertas, reprimidas ou bloqueadas durante esse período todo.

O que nós descobrimos agora foi um novo tipo de fraude em dois casos apenas. Isso nos permitiu abrir uma ampla investigação sobre outros casos similares. É um tipo de fraude novo na Sema, mas que já aconteceu no Ibama, que é o lançamento indevido de crédito diretamente no sistema.

 

( Entenda como funcionam as fraudes no controle de madeira )

[Em relação à minha saída,] o que está acontecendo é que esse processo de substituição tem que acontecer junto com uma minirreforma que a gente está fazendo no governo. Vários secretários estão sendo substituídos. A minha leitura sobre a exposição excessiva da Sema nesse fato é que a secretaria está sendo usada como bucha de canhão para um tensionamento político com a oposição ou entre setores da base aliada que estão descontentes com essa rearrumação.

Muito leitores escrevem ao Globo Amazônia dizendo que a Sema demora muito para aprovar os planos de manejo, que autorizam o corte legal de árvores. Por que essa demora existe? 

 

  • Aspas

    Uma ampla parcela do setor florestal cresceu em cima do desmatamento ilegal."

Essa transição [das aprovações de planos de manejo] do Ibama para os órgãos ambientais estaduais foi feita de forma abrupta. Não houve um tempo de preparo para que o órgão ambiental se estruturasse. Apesar disso, nós conseguimos aprovar um volume de projetos bastante significativo, mantendo a média do Ibama.

A crise que o setor florestal não quer reconhecer é que uma ampla parcela deles cresceu na última década em cima do desmatamento ilegal. Nós vivemos um período no Pará na década de 1990 em que o estado movimentava de 10 a 12 milhões de metros cúbicos de madeira por ano. Noventa por cento disso saído do desmatamento ilegal, de terras públicas ocupadas irregularmente.

Foi instalado um parque industrial para processar um volume [de madeira] que hoje não tem nenhuma chance de ser aprovado legalmente. No ano passado, aprovamos 3 milhões e poucos metros cúbicos, um terço do que estava disponível a quatro ou cinco anos atrás. Há uma capacidade ociosa [da indústria] pela completa impossibilidade de acessar madeira legal. Esse é o coração da crise.

Mas também há problemas de gestão. É indiscutível que os órgãos ambientais estaduais têm carência de pessoal, têm carência de capacidade técnica, têm carência de ferramental e instrumentos para operar e, portanto, nós poderíamos ter processos mais eficientes, com um tempo de resposta melhor.

 

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