Ouvindo passarinho nas matas da Amazônia o pesquisador Mario
Cohn-Haft, do Inpa (Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia)
fez uma descoberta que pode mudar muito o que se conhecia sobre
as aves da região.
Ele percebeu que pássaros muito parecidos
visualmente, considerados da mesma espécie, tinham cantos bem
diferentes. Analisando o DNA dos animais, Cohn-Haft chegou à
conclusão de que eram espécies distintas. “Em geral, quando há
uma diferença de voz, há uma diferença molecular”, afirma.
Siga o Globo Amazônia no Twitter
Mario Cohn-Haft falou sobre os 'sons da Amazônia' durante reunião anual da SBPC (Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência), em Manaus. (Foto: Iberê Thenório/Globo Amazônia)
A descoberta é uma reviravolta na catalogação das espécies
amazônicas. Atualmente, há cerca de 1.300 pássaros conhecidos na
região. Considerando as primeiras pesquisas já realizadas, que
chegaram a desmembrar uma só espécie em oito novas, o
pesquisador calcula que o número de passarinhos na Amazônia
poderá chegar a 3.000.
“A previsão é de que mais que dobre o número de
espécies sem que nenhuma nova espécie seja descoberta”, afirma,
lembrando que os pássaros novos serão identificados a partir de
animais já conhecidos.
Reportagem aberta para comentários. Deixe o seu ao final do texto.
A nova biodiversidade encontrada por Cohn-Haft está escondida principalmente em pássaros pequenos, que vivem em matas fechadas de terra firme. Para não confiar apenas nos ouvidos na hora de estabelecer a diferença entre os cantos dos animais, o pesquisador usa programas de computador que analisam a melodia emitida pelos bichos.
O cientista prevê que sejam necessários muitos anos para conseguir pesquisar mais de 1.700 novos tipos de aves. “O trabalho é caro e lento. Nossa grande preocupação é se o homem vai destruir em um ritmo mais rápido [essas novas espécies] do que estamos descobrindo”, alerta.
Ilustrações mostram o uirapuru e o garrincha-trovão, espécies já bem conhecidas. (Foto: Eletronorte/Divulgação)
Ouça alguns sons da Amazônia
Uirapuru (Cyphorhinus arada): tem um dos
cantos mais belos.
Garrincha-trovão (Thryothorus leucotis):
faz dueto com sua fêmea.
Pássaro-boi (Perissocephalus tricolor):
lembra um berrante.
* Gravações de pássaros retiradas do CD Vozes da Amazônia Brasileira, do Inpa.
|
Para que serve o canto das aves? A única coisa que se tem certeza, segundo Cohn-Haft, é que o canto significa “sou de tal espécie, e estou aqui”. Isso é importante para demarcar território e os animais saberem onde estão os seus semelhantes. |
|
Por que há pássaros que imitam o canto
de outros?
A hipótese mais aceita pelos cientistas é que, em algumas espécies, isso sirva para atrair o sexo oposto. Quanto melhor o imitador, mais ele atrai a atenção das fêmeas. |
|
Os pássaros podem aprender cantos
diferentes? Sim. Se treinados desde pequenos, eles podem aprender melodias diferentes das que já cantam na natureza. |
|
Há diferença entre cantos graves e agudos?
Em geral, os cantos graves conseguem se espalhar melhor na vegetação densa. Por isso, os pássaros de mata fechada tendem a cantar mais grosso, enquanto os de lugares abertos entoam melodias mais agudas. |
|
Por que há pássaros em que o macho faz
dueto com a fêmea?
O dueto serve como uma confirmação de presença e de território, como se dissessem “meu bem, estou aqui perto, no nosso quintal”. |
|
Quando há várias espécies diferentes
cantando ao mesmo tempo, existe alguma
organização entre elas?
Sim. Eles cantam de forma a evitar que um som atrapalhe o outro, para que todos possam ser ouvidos. |
|
É verdade que o canto do uirapuru é tão
belo que a mata fica em silêncio para ouvir?
O uirapuru canta no meio do dia, quando outras espécies costumam estar em silêncio. Por isso surgiu a lenda. |
Leia mais notícias de Amazônia

O Portal de Notcias da Globo