O gasoduto que vai levar o gás de Urucu para Manaus demorou três anos para ser construído. No auge, a obra empregava quase 9 mil pessoas. Foi preciso usar técnicas de construção inovadoras para diminuir os danos ao ambiente. Os engenheiros enfrentaram desafios específicos da Amazônia. Muitos rios, entre eles o enorme Solimões, lagos, pântanos, chuvas intensas, solo instável e uma floresta a ser protegida.
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Os riscos ambientais na região do Solimões são bem
conhecidos e a preparação para enfrentar uma eventual situação
de emergência é intensa, mas há outro tipo de impacto que recebe
pouca atenção: as mudanças na vida da população.
O gasoduto, por exemplo, cortou a pequena Vila de
Santa Luzia do Miriti e as 30 famílias que vivem aqui esperavam
uma grande melhoria de vida com a chegada da riqueza do gás, mas
ficaram desapontadas.
Promessas por cumprir
Com sua política de compensação, a Petrobras
construiu o prédio de uma escola, que é também a sede da
Associação Comunitária, mas os moradores acham que foi pouco.
Não receberam a luz prometida e o motor da bomba do poço de água
não funciona. Poucas das promessas escritas foram cumpridas.
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A ironia é que com todo o gás natural que vai passar pela vila,
os moradores não têm energia nem mesmo para uma câmara
frigorífica. O cupuaçú, único bem que pode ser comercializado
pelos moradores, apodrece no chão.
O engenheiro ambiental Alexandre Rivas trabalha
com comunidades na área do gasoduto. Ele explica por que parte
do lucro do petróleo e do gás tem de ficar na Amazônia. "A
nossa preocupação seria o quanto a indústria do petróleo, ou a
indústria de extração de recursos natural, consegue interagir
com o desenvolvimento, ajudar no desenvolvimento da região. Que
não seja uma exploração pela exploração".
O ciclo do petróleo poderia ter feito de Coari uma
cidade-modelo, mas a realidade está longe disso. Coari ficou
rica com Urucu. As reservas estão dentro da área do município.
No ano passado a cidade recebeu R$ 60 milhões em royalties,
quase R$ 1.000 por habitante, mas o que se vê nas ruas é
pobreza.
"Dinheiro tem demais, agora ninguém sabe para
onde é que vai. Ninguém sabe para onde está sendo aplicado esse
dinheiro". "Tudo errado, até os cegos enxergam isso.
Está tudo errado", comentam moradores. A população
ribeirinha tinha em 2006 uma renda per capita de apenas R$ 115
por mês, bem menos que a renda média dos moradores das áreas
rurais do estado.
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Os administradores de Coari tem uma clara
preferência por obras que possam ser vistas pelos eleitores e
que envolvam grandes contratos. Os prédios das escolas
municipais são novos e modernos, mas a qualidade do ensino fica
abaixo da média do estado do Amazonas. Fica atrás de cidades do
mesmo porte que não contam com a riqueza do gás e do petróleo.
No ano passado a Polícia Federal lançou uma
operação para apurar desvios de verbas da prefeitura. Vinte e
duas pessoas foram presas e quase R$ 7 milhões em dinheiro vivo
foram achados em malas. A acusação foi de superfaturamento em
obras.
O atual prefeito, que chegou a ser detido na
operação, reconhece alguns problemas da cidade, mas diz que o
dinheiro está sendo bem aplicado. "Um município que não
tinha nada e se tornou hoje, graças a Deus, conhecido pelas
obras, pelas infraestruturas que foram criadas. Eu reconheço que
hoje as ruas estão esburacadas, mas isso não quer dizer que nós
não podemos resolver", afirma o Prefeito de Coari, Rodrigo
Alves da Costa.
'Índices ridículos'
Padre Zezinho, um crítico dos administradores da
cidade, lamenta a situação de Coari. "Ostentamos índices
ridículos, pífios, na qualidade da educação do nosso município.
Um péssimo tratamento da água. Eu me sinto assim, como padre,
angustiado de ver tanta pobreza em um município tão rico".
Os indígenas receberam mais atenção. As poucas
aldeias que tiveram sua área cortada pelo gasoduto foram
recompensadas com boa ajuda. Baku, a cacique de um grupo
Sateré-Mawé, com dez famílias, está feliz.
Receberam dinheiro para a oca da escola, fizeram
uma farmácia de ervas naturais e ainda construíram um grande
espaço para atividades religiosas e culturais. As crianças
aprendem o português e também cultivam a língua de seus
ancestrais.
A farmácia é muito importante. Os sateré-mawé
foram iniciadores da cultura do guaraná e têm remédios para
quase todos as doenças. A Petrobras afirma que já implementou
diversas medidas compensatórias para as comunidades por onde
passa o gasoduto e que todos os acordos com a Vila de Santa
Luzia do Miriti serão cumpridos.

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