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16/07/09 - 18h07 - Atualizado em 16/07/09 - 19h37

Obra de gasoduto no AM não traz prosperidade esperada por moradores

Vila cortada pela construção sequer tem eletricidade.
Cidade recebe milhões em royalties, mas população vive na pobreza.

Do Globo Amazônia, com informações do Jornal da Globo

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O gasoduto que vai levar o gás de Urucu para Manaus demorou três anos para ser construído. No auge, a obra empregava quase 9 mil pessoas. Foi preciso usar técnicas de construção inovadoras para diminuir os danos ao ambiente. Os engenheiros enfrentaram desafios específicos da Amazônia. Muitos rios, entre eles o enorme Solimões, lagos, pântanos, chuvas intensas, solo instável e uma floresta a ser protegida.

 

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Os riscos ambientais na região do Solimões são bem conhecidos e a preparação para enfrentar uma eventual situação de emergência é intensa, mas há outro tipo de impacto que recebe pouca atenção: as mudanças na vida da população.

O gasoduto, por exemplo, cortou a pequena Vila de Santa Luzia do Miriti e as 30 famílias que vivem aqui esperavam uma grande melhoria de vida com a chegada da riqueza do gás, mas ficaram desapontadas.

 

 

Promessas por cumprir


Com sua política de compensação, a Petrobras construiu o prédio de uma escola, que é também a sede da Associação Comunitária, mas os moradores acham que foi pouco. Não receberam a luz prometida e o motor da bomba do poço de água não funciona. Poucas das promessas escritas foram cumpridas. 

A ironia é que com todo o gás natural que vai passar pela vila, os moradores não têm energia nem mesmo para uma câmara frigorífica. O cupuaçú, único bem que pode ser comercializado pelos moradores, apodrece no chão.

O engenheiro ambiental Alexandre Rivas trabalha com comunidades na área do gasoduto. Ele explica por que parte do lucro do petróleo e do gás tem de ficar na Amazônia. "A nossa preocupação seria o quanto a indústria do petróleo, ou a indústria de extração de recursos natural, consegue interagir com o desenvolvimento, ajudar no desenvolvimento da região. Que não seja uma exploração pela exploração".

O ciclo do petróleo poderia ter feito de Coari uma cidade-modelo, mas a realidade está longe disso. Coari ficou rica com Urucu. As reservas estão dentro da área do município. No ano passado a cidade recebeu R$ 60 milhões em royalties, quase R$ 1.000 por habitante, mas o que se vê nas ruas é pobreza.

"Dinheiro tem demais, agora ninguém sabe para onde é que vai. Ninguém sabe para onde está sendo aplicado esse dinheiro". "Tudo errado, até os cegos enxergam isso. Está tudo errado", comentam moradores.  A população ribeirinha tinha em 2006 uma renda per capita de apenas R$ 115 por mês, bem menos que a renda média dos moradores das áreas rurais do estado.

 

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Os administradores de Coari tem uma clara preferência por obras que possam ser vistas pelos eleitores e que envolvam grandes contratos. Os prédios das escolas municipais são novos e modernos, mas a qualidade do ensino fica abaixo da média do estado do Amazonas. Fica atrás de cidades do mesmo porte que não contam com a riqueza do gás e do petróleo.

No ano passado a Polícia Federal lançou uma operação para apurar desvios de verbas da prefeitura. Vinte e duas pessoas foram presas e quase R$ 7 milhões em dinheiro vivo foram achados em malas. A acusação foi de superfaturamento em obras.

O atual prefeito, que chegou a ser detido na operação, reconhece alguns problemas da cidade, mas diz que o dinheiro está sendo bem aplicado. "Um município que não tinha nada e se tornou hoje, graças a Deus, conhecido pelas obras, pelas infraestruturas que foram criadas. Eu reconheço que hoje as ruas estão esburacadas, mas isso não quer dizer que nós não podemos resolver", afirma o Prefeito de Coari, Rodrigo Alves da Costa.

 

'Índices ridículos'


Padre Zezinho, um crítico dos administradores da cidade, lamenta a situação de Coari. "Ostentamos índices ridículos, pífios, na qualidade da educação do nosso município. Um péssimo tratamento da água. Eu me sinto assim, como padre, angustiado de ver tanta pobreza em um município tão rico".

Os indígenas receberam mais atenção. As poucas aldeias que tiveram sua área cortada pelo gasoduto foram recompensadas com boa ajuda. Baku, a cacique de um grupo Sateré-Mawé, com dez famílias, está feliz.

Receberam dinheiro para a oca da escola, fizeram uma farmácia de ervas naturais e ainda construíram um grande espaço para atividades religiosas e culturais. As crianças aprendem o português e também cultivam a língua de seus ancestrais.

A farmácia é muito importante. Os sateré-mawé foram iniciadores da cultura do guaraná e têm remédios para quase todos as doenças. A Petrobras afirma que já implementou diversas medidas compensatórias para as comunidades por onde passa o gasoduto e que todos os acordos com a Vila de Santa Luzia do Miriti serão cumpridos.

 

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