Em um dos locais mais remotos da Amazônia, onde o estado do Amazonas faz divisa com a Colômbia, a fronteira só existe no papel. Dentro da floresta, índios dos dois lados convivem em harmonia desde o tempo em que os dois países nem existiam.
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“Nós somos todos parentes, pra nós não tem
fronteira”, afirma o índio tukano José Dias. “Só há fronteira
para que a gente tenha onde morrer”, brinca o indígena
colombiano José Manoel Alvarim.
Nessa região, conhecida como Cabeça do Cachorro, é
comum que índios de um lado da fronteira tenham plantações do
outro lado, ou que morem no Brasil e trabalhem na Colômbia, e
vice-versa. No rio Uapés, que separa Iauretê, no território
brasileiro, do departamento de Vaupés, na Colômbia, o vai-vém de
embarcações nunca para.
As roças são passadas de pai para filho, não
importa de que lado do rio estejam. “A gente trabalha nessa
parte da Colômbia por causa dos nossos antepassados. Os nossos
antepassados já tinham roça lá”, conta o índio wanano Gustavo
Cordeiro Trindade.
Segundo o tenente e comandante do pelotão do
Exército de Iauaretê, José Paulo Bacchini, a concepção indígena
de território, baseada no parentesco, não prejudica a ideia de
nacionalidade. “O índio brasileiro se orgulha de ser
brasileiro”, afirma.
Traficantes
A relativa paz do lugar, contudo, é abalada pela
presença de traficantes de drogas, que sempre causam conflitos
na região. O último foi em 2006, quando soldados brasileiros
trocaram tiros com guerrilheiros colombianos.
Segundo os indígenas, é comum a movimentação das
Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc) na região.
“Faz um mês que passaram por aí e fizeram uns acampamentos por
aí também”, relata o índio baré Gledson Gonçalves.
Um dos piores conflitos ocorreu em 2000, e ficou
conhecido com Massacre de Mitu, quando 30 índios foram mortos no
lado colombiano, onde a situação é mais insegura. “Vi gente
morrer como animais”, conta a índia colombiana Herbia Luz Lopes,
que se mudou para o Brasil e não quer mais voltar para onde nasceu.
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