Em São Gabriel da Cachoeira, no extremo noroeste do Amazonas, assembleia de índio virou febre. Eles hoje dominam a política local e, assim como os não índios, têm de conviver com os atritos e desentendimentos que fazem parte da democracia.
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A cidade mais indígena do Brasil sempre foi controlada pelos brancos, fossem eles padres, militares, juízes ou prefeitos. Só que um dia, além de caçar, pescar, fazer roçado, os índios resolveram conversar, negociar, fazer política. Depois disso, tudo mudou e a Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro (Foirn) atua há quase vinte anos.
“Nessa maloca que vocês estão vendo aqui, já recebemos vários
ministros de estado”, diz Renato da Silva Matos, presidente do
conselho da Foirn. Gerenciamos aqui recursos de 11 milhões por
ano! Daqui a gente se prepara para ir para políticas públicas”.
A grande vitória da entidade foi a demarcação e a
homologação de um território indígena do tamanho de Portugal, em
1998. “Tinha que comemorar muito. A gente sentiu assim como se
fosse resgatar um filho que você tinha, mas não reconhecia, não
tinha nome”, justifica Abrahaão de Oliveira França, presidente
da Foirn. Depois, novas lideranças foram surgindo.
“A melhor escola que eu tive foi esse período de
20 e poucos anos que eu fiquei no movimento indígena”, conta
Pedro Garcia, prefeito de São Gabriel da Cachoeira, primeiro de
uma chapa 100% indígena no Brasil.
“A dificuldade maior foi unir as etnias tukano com
baniwa”, diz Antônio Cardoso de Araújo, vereador pelo PDT.
Garcia, do PT, é um tariano criado entre os tukanos. O
vice-prefeito, André Fernando, do PV, é baniwa. Eles fizeram
história ao conquistar o poder.
“Na câmara, no momento, ainda ninguém levantou a
voz da oposição”, afirma Williams Kleber Ferreira Alves ,
vereador do PRP.
Quebra de aliança
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Mas, como tantas alianças, essa não durou nem seis meses. “Não
compartilhamos com essa forma de trabalhar. Acaba sendo
antidemocrático, desconsidera toda a base aliada que formou para
essa vitória”, reclama o vice-prefeito André fernando
"Baniwa".
A briga entre André Fernando e Pedro Garcia foi
feia e os dois mal se falam.
“Eu me senti como um marido traído nesse momento,
né?”, relata o prefeito. A federação, temendo que o movimento
indígena seja desacreditado pelas brigas na prefeitura, assumiu
uma postura de independência, sem ligação com nenhum partido.
“A Foirn não é oposição ao prefeito. Ela exerce o
seu controle social. Então nós não vamos, praticamente, deixar a
coisa acontecer errado e ficar calado”, alerta Abrahaão de
Oliveira, presidente da Foirn. “Isso pra nós é o máximo que
podemos orientar o nosso parente que está na prefeitura”.

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