O Ibama anunciou nesta terça-feira (24) que proibiu três
siderúrgicas de Marabá (PA) de comprarem carvão vegetal. Segundo
o instituto, elas foram flagradas adquirindo carvão de origem
ilegal por meio de um esquema que envolvia falsificação de
documentos. Entre as empresas está a maior siderúrgica do Pará,
a Cosipar.
De acordo com o Ibama, as empresas compraram 1.520
metros cúbicos de carvão de uma empresa de fachada, montada
para falsificar documentos que autorizam a movimentação de
madeira no sistema de controle estadual, o Sisflora. A Cosipar
teria adquirido 1.130 m³, enquanto a Sidenorte teria
comercializado 330 m³ e a Sidepar 60 m³.
Fábrica de carrocerias foi encontrada onde deveria estar empresa fantasma que vendia carvão para siderúrgicas do Pará. (Foto: Imaba/Divulgação)
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Por meio de sua assessoria de comunicação, a Cosipar negou que
tenha comprado produtos de empresas não legalizadas. “A
Companhia adquire carvão vegetal de fornecedores cadastrados e
constantemente auditados por equipe própria”, disse a empresa em
nota enviada ao Globo Amazônia.
O gerente de suprimentos da Sidenorte, Luiz
Antonio Aquino, afirma que ainda não recebeu notificação do
Ibama, mas diz que o carvão vegetal comprado pela empresa é
legal. “A nossa matéria prima só entra devidamente legalizada.”
A reportagem também contatou a Sidepar, mas seus
representantes não retornaram as ligações até a publicação desta notícia.
Carvão da floresta
O esquema de venda de créditos no sistema Sisflora foi descoberto
durante auditoria da operação Caça Fantasmas. Segundo o Ibama,
os fiscais desconfiaram quando a empresa LA Baseggio, que tinha
apenas três meses, havia movimentado 9 mil m³ de madeira e
carvão.
Na última sexta-feira (20), agentes do instituto
foram até a sede onde supostamente estaria a empresa, mas no
lugar encontraram uma fábrica de carrocerias de caminhão.
De acordo com o coordenador da operação, Paulo
Maués, ainda não é possível saber se as siderúrgicas negociavam
diretamente com a empresa fantasma ou se eram seus fornecedores
que ‘esquentavam’ a matéria prima utilizando a LA Baseggio.
“O que temos como afirmar é que o carvão utilizado
por essas empresas foi oriundo de desmatamento ilegal. Elas vão
ser autuadas, pois deveriam verificar os seus fornecedores nas
questões trabalhista e ambiental”, argumenta Maués.
Desmatamento
As três empresas autuadas pelo Ibama são guseiras – transformam o
minério de ferro, retirado no Polo Carajás, em ferro gusa. Nesse
processo, o carvão vegetal é utilizado como matéria prima dentro
de seus fornos.
Como existe uma proporção entre o ferro gusa que
sai das empresas e a quantidade de carvão utilizada, é fácil
saber o quanto de madeira as siderúrgicas consomem. Segundo o
Ibama, não há autorizações suficientes de produção de carvão
para tanto ferro gusa. “Essa conta nunca fechou”, afirma o
superintendente do instituto no estado, Paulo Diniz.
Ao longo dos anos, o consumo de carvão da mata fez
da região de Carajás uma das mais desmatadas da região Norte. O
município de Marabá (PA), onde estão instaladas as guseiras
paraenses, é o terceiro mais devastado da Amazônia. Dos seus 15
mil quilômetros quadrados, 7,9 mil já foram derrubados, segundo
o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). A área
equivale a cerca de cinco vezes o município de São Paulo.
Foto de satélite mostra a devastação ocorrida na região de Marabá (PA) entre 1984 e 2006. O município, onde ficam as guseiras paraenses, é o segundo mais desmatado da Amazônia. (Foto: Inpe/Divulgação)
Trabalho escravo
Além de prejudicar a floresta, o carvão ilegal do Pará também tem
causado danos a trabalhadores. Na última lista empregadores que
utilizaram mão de obra análoga à escravidão, publicada pelo
Ministério do Trabalho, estão três carvoarias de Goianésia do
Pará e Dom Eliseu (PA), ambos municípios fornecedores de carvão
para siderúrgicas paraenses.
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