Belo Monte fica no Pará, a 940 quilômetros de Belém, e há mais de 30 anos está no noticiário. Tudo por causa da intenção do governo de construir ali a terceira maior hidrelétrica do mundo. Esta semana, em meio a uma batalha judicial que ainda não acabou, o leilão para a construção da usina foi, enfim, realizado.
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É na Volta Grande do Xingu que será construída uma
obra gigantesca. A barragem da usina de Belo Monte vai passar
exatamente num trecho do rio com muitas ilhas mais montanhosas,
o que vai ajudar no represamento das águas. Só que a energia só
vai ser gerada a 50 quilômetros da barragem.
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A água vai ser desviada por imensos canais, de 250 metros de largura. Eles vão alimentar um lago, inundando 516 quilômetros quadrados de terra. É de um reservatório que sairá a água para rodar as turbinas da terceira maior usina do mundo.
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Só que esse desvio das águas vai reduzir a vazão
em cem quilômetros do rio, quase toda a Volta Grande do Xingu.
Em época das chuvas, a água avança pra dentro da mata.
Na aldeia dos índios araras da Volta Grande,
no limite das fazendas, já houve miscigenação e os moradores
português. Esta semana, eles ainda estavam sob o impacto da
notícia do leilão que decidiu o consórcio que vai construir a usina.
É que os araras vivem bem na curva da Volta Grande
do Xingu, o pedaço do rio que vai ter a vazão controlada. Depois
de construída a represa, o Xingu não vai ter nem cheia, nem
seca. Vai correr sempre no mesmo nível. O que os Araras temem é
que o rio seque, a água fique quente demais e mate os peixes,
que são a fonte da vida na aldeia.
Rio seco
“Tem muitas crianças que vão ver quando chegar na
idade deles, já vão encontrar o rio seco. Não vão mais encontrar
do jeito que Deus deixou”, diz uma índia.
O jovem cacique Joceney Arara, de 23 anos, sabe
que dias difíceis virão. “A gente está preparado pra o que der e
vier. A gente já fez vários movimentos pra chamar a atenção do
governo. A gente não vai recuar, vai partir para cima para
mostrar como é o nosso dia a dia na comunidade”.
Na aldeia, o diretor do filme “Avatar”, James
Cameron, e a atriz Sigourney Weaver se reuniram com lideranças
indígenas da região. Cameron se engajou na luta. Nos anos 1980,
o cantor Sting e o cacique Raoni conseguiram impedir a
construção com projeto que alagaria uma área três vezes maior.
Na época, a pressão do exterior funcionou porque o Brasil
precisava de dinheiro de fora para obra.
Na cidade de Altamira, pelo menos 4 mil famílias que vivem nos
igarapés devem ser transferidas, porque a água vai subir. “Sou
contra, porque a barragem vem trazer muita destruição pra nós”,
afirma a dona de casa Francinete Kuruaia.
Para quem não tem trabalho, a usina é esperança.
“O único movimento que tinha aqui era madeireira. Agora fechou
tudo, agora a gente ficou desempregado um tempão e nunca teve
uma solução para nós”, alega José Carlos Ferreira
Os empresários de Altamira apoiam a obra, mas com
condições. “Só interessa Belo Monte se resolver o ordenamento
fundiário, a Transamazônica, eletrificação rural. São os três
maiores gargalos que nós temos”, avaliou Vilmar Soares, do
movimento Fort Xingu.
Desmatamento
A obra vai atrair 80 mil pessoas. Com asfalto na
Transamazônica, deve aumentar o desmatamento na região, que já é
a campeã de destruição. Os pequenos agricultores que vão ter os
sítios inundados não querem deixar a terra de fartura.
“Vem o milho, vem o arroz, vem o feijão, vem o cacau. Isso aqui
é como se fosse uma vaca de leite que todo dia você tira, todo
dia vinga”, diz um agricultor.
Na aldeia dos xicrin, às margens do Rio Bacajá, um
afluente do Xingu, o povo faz a dança da guerra, mas o ânimo é o
de guerreiros prontos para a batalha e sim o de um povo com medo
e sem saber o que esperar do futuro.
O velho cacique Onça explica seu temor: “E se o
rio secar, o que vão fazer conosco? Sem água, a caça vai embora,
não vai ter peixe nem água pra beber. Então por isso nós somos
contra a barragem”.
Veja os bastidores das gravações na região do Belo Monte
O risco de destruição foi apontado por um painel
de 40 cientistas. Em Brasília, o responsável pelo projeto,
Maurício Tolmasquim, presidente da Empresa de Pesquisa
Energética, responde: “É importante tranquilizar a população
local, porque foi estipulado pela Agência Nacional da Água e
pelo Ibama uma vazão que seja condizente com a manutenção da
piscicultura, a manutenção da navegação, com a manutenção da
vida das comunidades que vivem do rio”.
Os índios exigem que um ‘benajoro’, um líder
grande, vá até a aldeia e dê sua palavra. “Tenho medo porque
tenho neto, tenho minha mãe velhinha, tenho medo de morrer. Que
venha o chefe branco, explique o que vai acontecer. Porque se
matar minha mãe e meus netos, vou matar também”, desabafa uma
índia xicrin, de facão em punho.
O Xingu está prestes a mudar mais uma vez. E de novo os índios estão se unindo, para tentar impedir que seu paraíso desapareça.

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