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28/05/10 - 06h55 - Atualizado em 28/05/10 - 13h17

Após dez anos, Brasil não consegue fiscalizar matança de botos na Amazônia

Carne do bicho é usada para facilitar captura do piracatinga.
País abastece 90% do mercado da espécie em cidade na Colômbia.

Renata Gimenes Do Globo Amazônia, em São Paulo

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Há pelo menos dez anos, pescadores caçam botos na Amazônia para produzir isca e fisgar o piracatinga. Mas até agora agentes ambientais só souberam sobre a ocorrência do crime por meio de relatos de ribeirinhos e rastros deixados para trás, como gaiolas de caça. A fiscalização não flagrou nenhum infrator.

 

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No início do mês, moradores no Peru relataram ter encontrado 200 botos mortos nos últimos dois anos. O Globo Amazônia também reportou, há um ano, a venda de olhos de boto-cor-de-rosa como amuletos em mercados do Norte do Brasil.

 

Gaiolas de caça e relatos são algumas das evidências dos ataques contra botos. (Foto: Nívia do Carmo/ Arquivo Pessoal)

“A pesca acontece há anos de forma velada. Fiscalizar é muito difícil pela imensidão dos rios e igarapés”, diz Andrey Silva, analista do Ibama em Tefé, no Amazonas, cidade onde o órgão ambiental já encontrou carcaças de botos mortos e gaiolas.


A pesca do piracatinga não é ilegal, mas matar botos, sim. O peixe é necrófago, ou seja, se alimenta de detritos e restos de carnes em putrefação. O uso da carne dos botos facilita sua captura.

 

Segundo Miriam Marmontel, pesquisadora de mamíferos aquáticos no Instituto Mamirauá, em Tefé, o peixe é apreciado na culinária colombiana e, no ano 2000, houve uma pesca em excesso da espécie no país.

 

"Isso fez com que eles buscassem outros locais para suprir a demanda”, diz ela. A partir daí, o Brasil entrou no mercado. A pesquisadora estima que no município colombiano de Letícia, por exemplo, cerca de 90% do piracatinga vendido tenha vindo do território brasileiro.

 

Em viagens pela Amazônia, a bióloga Nívia do Carmo fotografou provas de que a caça não para. “Vimos toneladas de piracatinga nos Rios Solimões, Purus, Japurá e Juruá, nas cidades de Tefé e Manacapuru, tudo no Amazonas”. De acordo com ela, que atua no Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), colombianos estão oferecendo frigoríficos flutuantes aos pescadores para agilizar a exportação do produto. 

 

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“Falta fiscalização para prevenir a diminuição drástica da população de botos”, diz Vera da Silva, coordenadora do Laboratório de Mamíferos aquáticos do Inpa. A pesquisadora trabalha tentando conscientizar os pescadores. “Mas eles alegam que com a carne de um boto adulto, que pesa de 150 a 200 quilos, é possível pescar de 300 a 600 quilos de piracatinga em duas horas”, diz.

 

Levantamento do Instituto Mamirauá indica que o quilo do piracatinga é vendido por R$ 0,40 a 0,80 pelo pescador e por R$ 2,80 nos barcos frigoríficos. No mercado de peixes de Bogotá, cada quilo custa R$ 4,40, valor que sobe para R$ 16 em outros mercados. A caça de botos é considerada crime ambiental, com pena que vai de seis meses a um ano de detenção. A punição pode ser multiplicada três vezes caso a caça seja comercial.

 

Foto: Nívia do Carmo/ Arquivo Pessoal

Piracatinga pescado com carne de boto. (Foto: Nívia do Carmo/ Arquivo Pessoal)

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