Um tiro no peito transformou em definitivo a carreira de José Carlos Meirelles. "Estava de férias no mato e um irmão meu acidentalmente me deu um tiro no meio do peito. Fui para o hospital e passei 2 meses lá, sem ninguém me encher muito o saco. Fiquei pensando na vida. Escapei do tiro, escapei da engenharia".
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Livre da faculdade, prestou concurso na Fundação
Nacional do Índio (Funai). De Brasília, desembarcou no Maranhão
para trabalhar com os urubu kapoor. "Fui entender realmente
o que era conviver com esses povos. Me dei bem de cara com os
índios", diz ele, hoje um dos sertanistas com mais
experiência na Amazônia. Meirelles desenvolveu a maior parte de
sua carreira no Acre e assumiu a Frente de Proteção
Etnoambiental dos yanomami
em 2010, ano que simboliza o centenário do indigenismo no
Brasil, cujo primeiro passo foi a criação do Serviço de Proteção
ao Índio e Localização de Trabalhadores Nacionais (SPI), em 1910.
'Acho que acerto maior que eu tive na vida foram os índios que fizeram', diz indigenista. (Foto: Lucas Frasão/Globo Amazônia)
Apesar da tradição indigenista ter evoluído no país por um século, ainda ocorrem diversos casos de desamparo e falta de proteção a povos indígenas, entre eles os isolados e de recente contato, identificados com ajuda de profissionais como Meirelles. Em agosto deste ano, por exemplo, awá-guajás do Maranhão saíram das aldeias e foram ao município de Zé Doca só para provar sua existência.
Meirelles conhece os awa guajá desde o início da década de 1970,
que marca o início de sua carreira. Ele encontrou um grupo de
índios da etnia andando pelo mato e tornou-se assistente da
frente. As primeiras conversas para a demarcação de uma reserva
no local surgiram quando o indigenista esteve por lá.
Apareceram novos e maiores desafios em 1976.
Meirelles cruzou o Pará e o Amazonas e se instalou no Rio Irá,
no Acre, que abastecia duas etnias.
"Eles trabalhavam em sistema de semi-escravidão como
seringalistas, abatendo mata para criar gado", lembra.
"Grandes pecuaristas compravam não só fazendas, mas rios
inteiros, e a situação era complicada para os índios. Eles
mostraram para a gente que território ocupavam e iniciamos
alguns projetos. Inventamos programas e cooperativas, que era só
para que os índios pudessem pensar na vida e estabelecer
estratégias. Não era possível se organizar vivendo em barracões,
dependentes do patrão".
Por anos Meirelles morou no Acre, nem sempre com
renda suficiente. Ele chegou a viver com metade de salário
mínimo e montou um bar como atividade extra. Também estudou
muito a história de indígenas na região para compreender porque,
no fim dos anos de 1980 - quando a Funai mudou a política em
relação a isolados e passou a proteger sua autonomia em vez de
estabelecer contato -, ashaninkas e kaxinawás que habitavam a
cabeceira do Rio Envira estavam guerreando.
No processo de ocupação dos seringais no Acre,
empresas consideravam tribos no caminho como obstáculos ao
desenvolvimento. Segundo Meirelles, colonizadores matavam índios
até cerca de 1915. Os assassinatos cessaram com a primeira crise
da borracha no mercado internacional. "Descobriram que não
dava mais pra matar índio e os colocaram para trabalhar nos
seringais e fornecer comida e caça, porque tinham os roçados. Os
que não quiseram esse contato foram subindo os rios cada vez
mais. Acho que por uma razão botânica, digamos, ainda há
isolados naquela região, pois os seringais só puderam avançar
até uma parte dos rios e sobrou um pedaço para eles se
esconderem", diz.
A perseguição de seringalistas a índios autônomos
na região pereceu até o fim da segunda Guerra Mundial. "O
soldado da borracha foi largado no meio do mundo e a guerra
contra os isolados acabou por falta de financiamento",
aponta Meirelles. A essa altura, porém, as aldeias haviam sido
totalmente remanejadas na região. "Deixaram de matar os
isolados, eles começaram a crescer de novo e a retomar suas
terras, só que quando chegavam nas áreas havia outros índios
ocupando. Começaram os conflitos."
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Uma base da Funai foi estabelecida perto dos ashaninka no fim da década de 1980. A instituição ajudou as etnias a estabelecerem acordos e Meirelles propôs a criação de 2 territórios, já demarcados. Mas novos conflitos ocorriam no Rio Tarauacá, também frequentado por isolados.
O indigenista sugeriu outra base no local, que não saiu do papel até haver um acidente. "Não é tarefa muito fácil convencer o estado brasileiro de que essas pessoas existem. Até que houve um isolado sabido que lascou uma flechada na minha cara. Quando matam um índio, ninguém fica sabendo e fica por isso mesmo. O dia que o índio flecha o cara que está enchendo o saco dele sai em tudo que é jornal e parece que o mundo vai acabar. Aproveitei o episódio e conseguiram criar a base", explica Meirelles.
A política de proteção funcionou bem na região até 2006, segundo o indigenista. "Chegou uma hora que o problema alcançou a área de fronteira. Temos uma política do lado de cá e do outro lado tem o Peru. A região amazônica do Peru nas cabeceiras do Rio Purus e do Juruá sofreu um processo monstruoso de ocupação", diz ele. As principais foram a mineração, a exploração de petróleo e madeira e o cultivo de folhas de coca. "Virou uma coisa completamente maluca. Tem reservas para isolado lá que só estão no papel. Os isolados do Peru começaram a migrar para o lado brasileiro em 2006", diz.
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Pressionados por madeireiros no Peru, índios que
agora estão em território brasileiro confundem funcionários da
Funai com invasores, segundo Meirelles. "Esse povo encontra
a gente com casa, motosserra e lenha e pensa que é madeireiro de
novo. Chegou um ponto que começamos a levar flechada mais uma
vez", explica o indigenista, que sobrevoou o local para
identificar as malocas no meio da floresta. As fotografias, com
indígenas mirando o arco para a lataria do avião, rodaram o mundo.
Armado com arco e flecha, isolado observa a passagem do helicóptero do governo do Acre. (Foto: Gleilson Miranda/Governo do Acre)
"Não consultamos os isolados para poder colocar a imagem deles pelo mundo. Mas achei que essa era a única maneira de chamar a atenção sobre a questão fronteiriça no Acre", diz Meirelles, para quem o contato com os povos aparenta ser inevitável em algum momento. "Eles estão crescendo e ouso dizer que dobraram a população em 20 anos. As maloquinhas que via em 1989 hoje são senhoras malocas. Se o entorno não for parceiro, vai ter guerra de novo".

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