Na década de 1970, ele deixou sua casa em São Paulo para fazer novos irmãos entre índios nambiquara, que habitam a região de divisa de Rondônia com Mato Grosso. Passou mais de 14 anos ao lado deles, vivendo em uma aldeia. Mas precisou sair da área camuflado em um carro da Polícia Federal, após sucessivos episódios de violência envolvendo práticas ilegais de extração de madeira.
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"Saí por uma questão de violência da
atividade madeireira. Todos os meus colegas acabaram sendo
afastados por uma máfia que se instalou na década de 1980 para
facillitar a venda de madeira indígena dos suruí, dos
cinta-larga e dos nambiquara", diz o sertanista Marcelo dos
Santos, que completa 35 anos de trabalho dedicado à proteção
dos índios em 2010, ano que simboliza o centenário do
indigenismo no país, cujo marco inicial foi a inauguração do
Serviço de Proteção ao Índio e Localização de Trabalhadores
Nacionais (SPI), em 1910.
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Indigenista desde 1975, Santos atuou a maior parte de sua
carreira em Rondônia, um dos estados mais violentos do país para
a questão indígena, segundo a economista e antropóloga Betty
Mindlin. Seu envolvimento foi tão grande que ele chegou a fazer
parte de uma família indígena de nambiquaras.
"Andava muito no mato com eles e passei a
participar da família. Depois de 5 ou 6 anos com os nambiquara,
vi que meu papel era o de sedentarizador da vida indígena".
Mas houve um indígena, irmão de Santos, que começou a se
interessar pela venda de madeira da reserva, como ocorreu com
diversas aldeias da região, cooptadas por colonos cada vez mais
abundantes que chegavam do Sul do país atraídos por generosos
subsídios do governo para ocupar Rondônia.
O indigenista havia passado cerca de um ano e meio
afastado da tribo, cumprindo missões administrativas na cidade
de Vilhena, e ficou sabendo do interesse de seu irmão indígena
em vender madeira quando retornou à aldeia. "Quando voltei,
ele resolveu brigar comigo. Isso foi muito traumático para mim e
virou uma grande confusão dentro da aldeia. Ele estava
determinado de que eu tinha de sair", lembra Santos.
"Quando cheguei lá, em 1976, disse: 'nenhum branco
vive com vocês se vocês não quiserem. E só fico aqui convivendo
com vocês se assim acharem necessário", lembra.
Santos saiu. Mas indígenas que viviam na aldeia
resolveram acompanhá-lo. "Fui levá-los de volta às aldeias
de origem deles e no meio do caminho encontramos
madeireiros", diz. Eles estavam dentro de território
nambiquara. Santos avisou por rádio sobre a invasão. "Fomos
lá, uns 5 índios armados. Os nambiquara são muito loucos e
chegaram atirando. O problema com os madeireiros já estava se
prorrogando por muitos anos", conta. "Os madeireiros
estavam acostumados a esse tipo de comportamento e também
começaram a atirar. Houve um grande tiroteio e os madeireiros
saíram correndo. Quando saímos da mata, 5 madeireiros armados
estavam nos esperando. Ficamos presos no mato e eles no
asfalto".
A confusão prosseguiu naquela dia de 1991 e os
madeireiros só saíram do local quando apareceu um de seus
colegas que havia se perdido no mato. Nos dias seguintes, porém,
Santos recebeu informações do Conselho Indigenista Missionário
(Cimi) de que madeireiros estavam enchendo 3 caminhões com gente
suficiente para atacar os indígenas. "Iam acabar com
tudo", diz o indigenista. Ele acionou organizações não
governamentais e a Polícia Federal, que apareceu por lá na manhã
seguinte para colher depoimentos sobre os conflitos. "Minha
saída da área foi um bocado triste. Colegas, a esposa e os
filhos disseram para eu sair de lá senão ia morrer. A Polícia
Federal me colocou no chão do carro, me tampou e me tirou de lá."
Santos passou a trabalhar com índios isolados na década de 1990 após deixar de morar em aldeia. (Foto: Lucas Frasão/ Globo Amazônia)
Santos passou a trabalhar com índios isolados, com os quais já
havia vivido outras experiências nos anos de 1980. No sul de
Rondônia, ele se deparou com situações de conflitos gerados pela
ocupação da Amazônia pelo homem branco, quase sempre com saldo
negativo para os habitantes originais. A terra havia sido
dividida nos anos de 1970 e nela foram criadas grandes
propriedades rurais, algumas em áreas onde viviam índios
isolados.
Em 1985, o indigenista presenciou o que pode ter
sido o genocídio de um grupo da região, crime ainda não
comprovado por falta de investigações oficiais. "Achamos
vestígios de indígenas, mas os fazendeiros já haviam passado com
tratores por cima das picadas na mata. Houve uma estratégia de
desaparecer com todos os vestígios desse povo", diz Santos,
referindo-se ao que ficou conhecido como o massacre de
Corumbiara. Impedido de entrar na área pelos fazendeiros e sem
poder investigar o caso, Santos deixou o local e foi substituído
por outra equipe da Fundação Nacional do Índio. Segundo ele, os
novos funcionários tinham acordo com proprietários da fazenda e
o órgão emitiu um relatório afirmando que ali não havia
indígenas isolados.
Santos voltou ao local anos depois. "Só havia
uma bolinha de mata e mais de 90 mil hectares tinham sido
destruídos. Levei 2 jornalistas e um cineasta para acompanhar a
expedição. Não tínhamos autorização para entrar e escapamos de
uma cilada, pois havia 2 homens armados em baixo de uma ponte
esperando para nos matar. Mas sabíamos que, se achássemos os
índios, detonávamos todo o processo".
Leia também: Indigenista coordena programa de etnia quase extinta com criação da BR-174
O cineasta era Vincent Carelli, que já havia trabalhado na Funai
e dedicava-se a pesquisar o paradeiros dos sobreviventes do
massacre no sul de Rondônia. Ele filmou o momento em que a
expedição encontra os indígenas. "Primeiramente fiquei
reticente", lembra Santos. "Esperamos eles fazerem
contato e não sabíamos que ainda tinha um outro grupo vivendo a
2 quilômetros dali."
O resultado das filmagens foi editado no
documentário Corumbiara, que estreou no festival É Tudo Verdade
em 2009 e foi premiado no Brasil e no exterior. Carelli chegou a
ser preso por um dos fazendeiros durante as filmagens e quase
foi assassinado. Após mostrar o resultado de seu esforço, que
incluiu a busca por outros indígenas que compreendessem a fala
dos isolados para poder estrevistá-los, Carelli pede em
entrevistas para que autoridades investiguem o caso com mais profundidade.

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