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14/09/08 - 19h55 - Atualizado em 14/09/08 - 20h00

Restrição de crédito ameaça milhares de agricultores no norte do MT

Produtores não têm como corresponder às exigências ambientais.
Estado tem 560 assentamentos, metade deles no bioma Amazônia.

Do Globo Amazônia, com informações do Globo Rural

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Milhares de agricultores do norte de Mato Grosso podem ficar sem crédito oficial de custeio ou de investimento nesta safra por causa da resolução do Conselho Monetário Nacional que restringiu o acesso ao crédito dos agricultores que não cumprem as leis ambientais.

 

Acesse o site do Globo Rural

 

O objetivo da medida é enquadrar a exploração agrícola da Amazônia aos limites impostos pelo código florestal. Uma decisão que atinge tanto os grandes como os pequenos produtores.

 

Brasnorte

 

Mato Grosso tem 560 assentamentos. Quase metade deles dentro do bioma Amazônia. Um deles, no município de Brasnorte, fica bem na margem do rio Juruena.

O assentamento Juruena 1 tem 15 mil hectares. As primeiras famílias chegaram ao lugar em 1998, mas a área só foi regularizada em 2002. São 259 lotes com tamanho que varia de 50 a 70 hectares, dependendo da qualidade da terra.

O paranaense Renato Gonçalves está no lugar desde o começo. Chegou a Mato Grosso na década de 70 em busca de trabalho nas fazendas em formação. “Sempre na lavoura trabalhando com descarga de semente, preparo da terra e plantio no cerrado”, contou.

Depois de muito trabalhar para os outros, Renato conseguiu um lote de 50 hectares no assentamento. “Quando vier a chuva para fazer o plantio de arroz, vou plantar arroz e depois o milho safrinha”, contou.

Renato também cria gado de corte e umas poucas vacas de leite. Toca todo o serviço sozinho.  A maior parte dos assentados do Juruena trabalha como Renato. A produção dos sítios serve para abastecer as famílias e garantir alguma renda.

Sem recurso próprio, Renato e os vizinhos dependem do crédito oficial para tocar as propriedades. 


Os agricultores foram surpreendidos pela resolução do Conselho Monetário Nacional, que restringe o crédito pra quem não respeita o meio ambiente. Agora, para conseguir financiamento, eles têm que apresentar a licença ambiental ou, pelo menos, uma declaração do Incra de que todo o assentamento está em conformidade com a lei.

“A minha área não tem reserva legal de mata. Nenhuma aqui tem. Tem só em beira de rio ainda. Não adianta falar que tem legal porque não está. A gente está ilegal diante da legislação ambiental. Agora, não sei como nós vamos fazer. Nós queremos trabalhar”, disse Renato.

Segundo o presidente da Federação dos Trabalhadores na Agricultura de Mato Grosso, Adão da Silva, milhares de famílias do Estado estão na mesma situação. 

“Para se ter uma idéia, no rstado do Mato Grosso temos apenas um assentamento com licenciamento ambiental. Outra questão é a georreferenciamento. Aonde sai o título, o cartório não registra porque o assentamento não tem georreferenciamento. Aí o banco também não financia. Também não serve como garantia. Nós temos em torno de 70 mil a 80 mil pequenas propriedades que não vão conseguir pegar nenhum tipo de recurso aqui no Estado”, informou Silva.

Os assentados têm mais uma preocupação. Para conseguir o licenciamento ambiental, eles têm que cumprir a lei: destinar 80% da propriedade para a reserva legal. No Juruena, nos lotes de 50 hectares, o agricultor só vai poder explorar 10 hectares. 

Ajuda

 

“Todo mundo tem um pedacinho de chão para trabalhar e é pequeno. Seria muito bom se a gente tivesse aqui uma ajuda, uma liberada que dê pouquinha área de terra que a gente pudesse produzir. Mas é desse jeito que você viu a gente trabalhando”, reclamou Renato.

Jorge Dias é um dos vizinhos do produtor. Filho de trabalhadores rurais, ele formou-se técnico em agropecuária. Em 2001, foi para o assentamento onde vive com a mulher e a filha. Ele também não tem reserva legal.

“Se a gente deixasse a reserva legal, seria impossível o pessoal sobreviver aqui dentro. A pessoa pode viver com quatro alqueires perto de um grande centro, produzindo verdura, legumes, frutas e essas coisas. Aqui nessa distância não é possível. Ou se planta arroz ou milho, que precisa de uma grande área com uma grande produção para sustentar a família, ou vai mexer com leite”, falou.

É mesmo o leite que hoje sustenta a família de Jorge. “A gente tira em torno de 130 litros de leite por dia. Nós estamos hoje com 14 vacas”, disse. 

Resfriador


Com pouco gado, criado só a pasto, a produção e o ganho da família sempre foram pequenos. Numa tentativa de melhorar a renda da propriedade para poder viver só da terra, no começo deste ano Jorge fez uma sociedade com seus irmãos para comprar o resfriador, com capacidade para 1,6 mil litros de leite.

Jorge também resfria o leite de 13 vizinhos e ganha para isso R$ 0,05 por litro. “A gente tira uma renda bruta de cerca de R$ 2,4 mil a R$ 2,5 mil por mês. Sobra líquido para cada uma média de R$ 400,00. Isso não está bom”, avaliou.

Para aumentar a renda, Jorge pretendia investir no melhoramento da pastagem e do rebanho. Para isso, já tinha dado entrada com pedido de financiamento no Banco do Brasil. Mas, como não tem a documento do Incra, o pedido não foi aprovado.

“Eu liguei para o Incra e ninguém sabe explicar nada sobre isso. A única coisa que eu sei é que não vão dar a declaração. Disseram que não porque não darão uma declaração dizendo que está certo sem estar e não tem projeto de manejo, de recuperação da área”, contou Jorge.

O presidente do Incra, Rolf  Hackbart, afirma que a entidade está tentando acelerar o licenciamento ambiental dos assentamentos. “Nosso objetivo é fazer o licenciamento de todos os assentamentos do país. Mas são sete mil assentamentos. Então, vai demorar. Para a próxima safra nós estamos fazendo parceria com os governos estaduais, assinando termos de ajuste de conduta, termos de compromisso, planos de trabalho para fazer o licenciamento prévio dos assentamentos”, explicou.

Rolf Hackbart também reconhece que alguns assentamentos podem ter dificuldade para cumprir o que manda a legislação ambiental. “Nós temos que rever a situação de vários assentamentos no país. Pode até ter assentamentos inviáveis. Agora, também deve se pensar no assentamento o que produzir preservando. E preservar não quer dizer não fazer manejo sustentável. É não explorar mel, é não explorar outras culturas dentro do manejo sustentável”, completou.

 

Preocupação


Por enquanto, na prática, para Jorge e os outros assentados da Amazônia, o que existe é preocupação. “Nós dependemos desse recurso oficial do governo porque é um juro menor com prazo para a gente poder pagar. Dá para a gente produzir com esse dinheiro e pagar com ele mesmo.  Sem esse dinheiro não tem condição de trabalhar. É melhor nós abandonarmos e irmos embora. Voltar cada um para o seu emprego e trabalhar”, concluiu.

“O que não queremos é que a família saia de lá. Se não tiver acesso ao credito, não vai produzir, não vai ter renda e vai embora para os grandes centros urbanos. Aí é o caos”, disse Hackbart.

A Amazônia brasileira abriga quase 25 milhões de pessoas. O desafio, hoje, está em preservar esse ambiente fundamental para todo o planeta e, ao mesmo tempo, encontrar saídas para as populações que vivem lá.

 

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