Noites em claro, picadas de mosquitos, carros encalhados, tensão.
Assim é o dia-a-dia da equipe de fiscalização do Ibama na
Operação Ponta de Lança, deflagrada no último dia 8, que combate
o desmatamento ilegal no Parque Nacional Juruena, no norte do
Mato Grosso.
Os primeiros dias da operação foram registrados em
um diário pelo coordenador-geral de Fiscalização Ambiental do
Ibama, Luciano de Meneses Evaristo. Em dois dias, a equipe de 45
homens flagrou garimpos clandestinos, caminhões sem documentação
carregados de madeira, palmito retirado ilegalmente, tráfico de
animais e um rebanho de bois dentro do parque nacional.
Apesar de ações como essa serem realizadas com freqüência pelo
Ibama, o Ministro do Meio Ambiente, Carlos Minc, admitiu, em entrevista
ao Globo Amazônia
, que elas ainda são insuficientes. "Deveríamos ter o
dobro disso", disse.
Confira, abaixo, o registro da operação feito por
Luciano Evaristo:
Alta Floresta, Mato Grosso, 8 de setembro, quase uma hora da
manhã. Quarenta e dois agentes ambientais federais e três
policiais rodoviários federais se reúnem no escritório do
Ibama. Nasce a operação Ponta de Lança, primeira grande
fiscalização ambiental no Parque Nacional Juruena. O Parque
é a 3ª maior Unidade de Conservação brasileira criada há
dois anos, com área de 1,9 milhões de hectares no norte do
estado. O Ibama dá irrestrito apoio à ação de combate a
ilícitos ambientais idealizada pelo Instituto Chico Mendes
de Conservação da Biodiversidade (ICMbio).
Comboio levou 43 fiscais do Ibama e três agentes da Polícia Federal. (Foto: Ibama / Divulgação)
Alta Floresta está imersa em calmaria, como é típico do
interior, mas na unidade do Ibama o clima é de apreensão. Os
coordenadores repassam os últimos detalhes do plano
concebido por ações precursoras de inteligência e levado a
cabo pela direção do parque com o apoio de especialistas do
Ibama. Enquanto isso, agentes e viaturas permanecem
concentrados na área externa. Aguardam instruções, pois até
o momento nada lhes fora revelado em razão do sigilo
determinado pela coordenação.
Naquela madrugada, faces já marcadas pelo
tempo, carregadas pela experiência, se misturam com as dos
jovens egressos dos últimos concursos. Estão presentes
agentes do Ibama e do ICMBio de Cuiabá, Sinop e Alta
Floresta, e agentes ambientais de outros estados que atuam
na operação Arco de Fogo na região. Quatro agentes do Grupo
Especial de Fiscalização (GEF) vieram de Brasília para
apoiar os trabalhos.
Em meio aos agentes ambientais federais,
circula com desenvoltura o servidor do ICMBio, alcunhado de
Bin Laden, encarregado de atuar no apoio logístico da
operação. Bin Laden é uma figura atípica. Simplicidade, bom
humor e a grande disposição para o trabalho são marcantes na
sua personalidade. É um especialista em mecânica de
caminhonetes, caminhões, tratores. É o verdadeiro “Severino”
da equipe. Pra tudo ele dava um jeito.
'No caminho, vários caminhões de madeira serrada dormem nas reentrâncias da estrada.'
Duas horas da madrugada. As equipes foram divididas. Os
coordenadores de cada uma recebem envelopes com os alvos
determinados. O comboio de 15 viaturas do Ibama e uma da PRF
[Polícia Rodoviária Federal] parte aos poucos, para não
chamar atenção. O encontro é em Nova Bandeirantes (MT). Bin
Laden e o seu "veículo oficina” saem por último. A
estrada é esburacada e poeirenta. No caminho, vários
caminhões de madeira serrada dormem nas reentrâncias da
estrada. Ao meu lado, o agente conhecido como Piauí dirige a
viatura com olhos arregalados, porém firmes ao combater o
sono que certamente se abatia sobre todas as equipes.
Nova Bandeirantes, 7 horas. As equipes se
concentram em um posto de gasolina para o último
abastecimento antes do ataque aos alvos do Parna Juruena. A
cidade entra em polvorosa. Madeireiros acham que o comboio
vai atacar as serrarias. Motoqueiros vigiam o comboio para
avisar os patrões. Abastecidos os veículos, o comboio parte
em direção ao parque. A velocidade é controlada, pois a
entrada no local está planejada para depois do ataque da
equipe aérea ao ponto de corte seletivo na Fazenda Salomão,
previsto para 13h20. O comboio pára no limite do parque e
aguarda a incursão aérea. Não há qualquer tipo de
comunicação no local, exceto os rádios portáteis das equipes.
Área ainda preservada dentro do parque Nacional de Juruena (Foto: Ibama / Divulgação)
Já passa das 13h30 e não há sinal do helicóptero do Ibama. A
coordenação determina o avanço do comboio. Nesse momento,
aparece um caminhão Volvo carregado de palanques de itaúba e
escoltado por uma Toyota Bandeirante. A Toyota não tem
placas, nem documentos, e o caminhão não tem guia para a
madeira. Trata-se de extração ilegal de madeira no interior
do Parque Nacional efetuada pelo gerente da Fazenda Salomão.
Os veículos e a carga são apreendidos e compelidos a voltar
em direção à fazenda.
No caminho, um garimpeiro com uma motosserra é
detido e forçado a voltar. O comboio avança e repentinamente
é paralisado. Uma viatura cai no vão de uma ponte. Os
agentes se unem para resgatar o veículo. O imprevisto barra
o avanço do comboio em direção aos alvos e compromete os
horários planejados. Servidores novos e antigos se empenham
e depois de várias tentativas desobstruem o caminho.
O comboio chega ao segundo ponto de concentração no trevo
que dá acesso ao garimpo e às fazendas Salomão e Santo
Antônio. Veículos são abordados e obrigados a retornar.
Ninguém pode passar pelas equipes. Nesse ponto, inicia-se o
ataque. As equipes de Cuiabá e de Sinop investem sobre o
garimpo da Clareira. Equipes de Brasília, Cuiabá e Alta
Floresta avançam sobre as derrubadas nas fazendas.
'Uma viatura cai no vão de uma ponte. Os agentes se unem para resgatar o veículo.'
Nas fazendas, é flagrante o desmatamento ilegal. Várias pequenas esplanadas são avistadas ao longo da estrada. Na Fazenda Salomão, o GEF já havia chegado de helicóptero e dominado a situação. A equipe comandada pelo chefe da Fiscalização de Cuiabá aborda outra fazenda limítrofe à Salomão e constata a presença de cerca de 600 bois sobre desmatamento recente e a construção de curral com madeiras extraídas ilegalmente do parque. A área foi embargada e autuada em cerca de R$ 1 milhão. A confecção do curral foi interrompida e as madeiras foram apreendidas.
Com parte da casca retirada, árvores centenárias morrem aos poucos. (Foto: Ibama / Divulgação)
Por outro lado, a equipe composta pelos coordenadores-gerais
de Fiscalização do Ibama e do ICMBio, com o suporte do
coordenador do Ibama da Arco de Fogo em Alta Floresta, a
quem chamaremos de “R”, do agente Piauí e ainda do agente
“faz tudo” Bin Laden, deteve o gerente da Fazenda Salomão e
passou a inspecionar os ilícitos no local. Um trator amarelo
foi encontrado numa abertura ilegal de estrada. Estava
quebrado. Em seguida, a equipe penetrou em um carreador
(estrada) e se deparou com outro corte seletivo não
detectado pela inteligência. Maçarandubas centenárias
estavam marcadas pela técnica do anelamento, na qual a
árvore tem a sua casca circuncidada e passa a morrer em
lenta agonia até o abate final pela motosserra. O infrator
alegou que a técnica é empregada para diminuir os ocos e
deixar a madeira mais maciça.
'Maçarandubas centenárias estavam marcadas pela técnica do anelamento, na qual a árvore tem a sua casca circuncidada e passa a morrer em lenta agonia até o abate final pela motosserra.'
A mesma equipe segue em direção ao rio São João, onde flagra
um caminhão Mercedes carregado com mais de 3 mil vidros de
palmito em conserva. O caminhão estava quebrado. Bin Laden,
com seu faro de perdigueiro, descobre um carreador. “É o
carreador do palmito”, diz. “No final dele tem um
acampamento”, completa. Andamos cerca de 2 km no carreador
em meio a açaizeiros destruídos e chegamos a um acampamento
deserto. Havia um tonel de 200 litros de diesel. Bin Laden
estava certo. Ele retornou pelo carreador e trouxe a viatura
com o coordenador de Fiscalização do ICMBio.
Passamos a checar toda a área em volta. O sol
se aproxima do crepúsculo, quando o chefe da Fiscalização do
ICMBio deteve na margem do rio um cidadão que viera
verificar a nossa movimentação. Ele fazia parte do grupo de
palmiteiros e apontou para um outro acampamento na outra
margem do rio São João. Atravessei o rio com “R”, o
palmiteiro e o chefe de Fiscalização do ICMBio. Do lado de
lá do rio, encontramos outro palmiteiro que tomava banho.
Este foi rendido e informou haver outros oito acampados
acima. O barranco era íngreme, com varas na horizontal para
auxiliar a subida.
Olhei fixamente para “R” e ele exclamou:
“Vamos encarar, não dá para esperar reforço, os caras podem
fugir!” Pensei: “O cara está louco!” Mas não, “R” é um herói
como demonstrou a seguir. Partiu na frente pelo barranco.
Rendeu e revistou o 1º, dominou o 2º e adentrou na mata para
perseguir outros que fugiram. Havia quatro barracos: três de
alojamento e um que continha a estrutura para cozimento e
engarrafamento de palmito de açaí. Fiquei no acampamento
para controlar os detidos junto com o chefe da fiscalização
do ICMBio, que passou em revista todo o acampamento. Uma
espingarda calibre 20 com munição e várias facas foram apreendidas.
Palmito era cozido em acampamento no meio da floresta (Foto: Ibama / Divulgação)
Já de noite, pedi reforço do GEF que nos substituiu, mas “R”
ficou com eles. Passaram a noite no meio da mata,
acompanhados de piuns e carapanãs. Detiveram o restante do
grupo de palmiteiros e aprenderam o trator que transportava
o produto ilegal. A noite foi longa no revezamento da
custódia dos detidos. Os agentes se revezavam dormindo em
mesas de madeira.
Retornamos à Fazenda Salomão. Encontrei os
heróis que atacaram o garimpo. Um grande número de
infratores estava detido no local para os procedimentos
administrativos. Isso mesmo, altas horas da noite, os
agentes do Ibama/ICMBio agora faziam as autuações e
apreensões. Me chamou a atenção o chefe da equipe do
garimpo, que vamos chamar de “F”. Trata-se de um agente
ambiental federal de Alta Floresta. Sério, competente e que
conjuga muito bem o binômio educação/rigor. Durante todo o
procedimento tomou decisões firmes e serenas. Comandou a
missão mais perigosa. Segundo os levantamentos, 50 pessoas
estavam no local do garimpo, que era disperso. De repente,
Bin Laden chega. Ele pilota o trator que estava quebrado no
desmatamento.
Já é quase meia noite. Os guerreiros do meio
ambiente se recolhem ao descanso. Vejo vários colegas
dormindo no chão do alpendre da fazenda. Observo alguns
dormindo nas carrocerias abertas das viaturas. Outros em
pequenas barracas sobre pranchas de madeira. Ainda outros
dormindo dentro dos veículos.
Garimpo ilegal dentro do Parque Nacional Juruena (Foto: Ibama / Divulgação)
O dia começa a clarear, são 5 horas da manhã. As equipes
começam a se movimentar. A equipe do garimpo retorna ao
local para a retirada dos motores. A nossa equipe permanece
para aguardar a possível visita do ministro do Meio
Ambiente. A equipe que pernoitou na mata com os palmiteiros
permanece no local em alerta com a missão de desmontar a
fábrica ilegal de palmito.
A nossa equipe aguarda até a hora prevista
para a chegada do ministro. Algo aconteceu e a comitiva não
chegou. A equipe então é dividida para reforçar o garimpo e
continuar a bater os carreadores. A equipe com os
coordenadores de Fiscalização do Ibama e do ICMBio descobrem
um desmatamento ilegal para a abertura de estrada de 15
metros de largura por 15 quilômetros de extensão. No final
da estrada, a derrubada continua. A equipe percorre a pé a
mata ao tentar localizar o trator de esteira, acompanhada
pelo ataque de mosquitos, formigas de fogo e carrapatos.
Não logrando êxito, a equipe retorna para a
Fazenda Salomão. No local, começam a chegar as equipes do
garimpo com oito motores apreendidos. Os agentes estão
exaustos. Observo o agente “E” da coordenação-Geral de
Fiscalização do Ibama que presta apoio à operação Arco de
Fogo em Sinop. Seu rosto está queimado e repleto de calombos
de picadas de mosquitos. O mesmo se dá com o Chefe da Dicof
do Ibama/MT e com todos os integrantes da equipe do garimpo.
As equipes do Ibama/ICMBio retiraram todos os motores do
garimpo da clareira em meio à água contaminada de mercúrio,
mosquitos e sob o sol implacável da Amazônia. São
verdadeiros heróis que defenderam o Parque Juruena. O
garimpo da clareira pereceu diante da valentia dos agentes
ambientais federais.
A operação Ponta de Lança chega ao fim na
fazenda Salomão. A nossa equipe se desloca para apoiar a
retirada do acampamento dos palmiteiros. Na beira do rio São
João, Bin Laden conserta o eixo quebrado do caminhão
carregado de palmito, faz ligação direta e conduz o veículo
para a Fazenda Salomão. Equipes de Juína/MT chegam para
apoio. O acampamento é retirado. No local, vejo o chefe de
operações da Coordenação-Geral de Fiscalização do Ibama
reunido com os palmiteiros. Sua voz grave repreende os
infratores e adverte para que não voltem ao Parque.
'Na estrada, Bin Laden enxerga uma caixa de papelão e pára. Dentro dela encontra um filhote de arara ainda emplumando.'
Já passa das 23 horas. As últimas equipes partem de volta a Nova Bandeirantes. A poeira deu lugar à chuva. Troncos caem na estrada e são cortados pelas motosserras dos agentes ambientais. O chefe da Fiscalização do ICMBio dirige a viatura da nossa equipe. Todos estamos exaustos. Em certo momento, vejo a viatura deslizar à esquerda, dei alarme e o chefe do ICMBio corrigiu à tempo. Chegamos em Nova Bandeirantes às 3 horas da manhã.
Caminhão carregado com madeira retirada ilegalmente foi apreendido. (Foto: Ibama / Divulgação)
A última equipe deixa a Fazenda Salomão. Bin Laden dirige um
caminhão velho apreendido com a carga de palmito e
consertado por ele no mato. Na carroceria, os palmiteiros. É
escoltado pelo agente Piauí. O caminhão desliza
perigosamente na estrada castigada pela chuva. Na estrada,
Bin Laden enxerga uma caixa de papelão e pára. Dentro dela
encontra um filhote de arara ainda emplumando. O traficante
fugiu. As mãos sujas de graxa de Bin Laden envolvem a
pequena arara que passou a ser a sua companheira no calor da
boléia do caminhão.
Enfim, todos chegamos de volta a Nova
Bandeirantes. Os três hotéis da cidade estão completamente
lotados com os agentes ambientais federais. No meu hotel,
vejo agentes dormindo em colchões no refeitório, inclusive
debaixo da mesa. Vejo um agente dormindo num colchão no chão
no corredor dos quartos. Vejo ao meu lado três agentes que
dormem em colchões no chão na recepção do hotel. Bin Laden
chegou de manhã. Piauí apenas tomou um banho e retornou
conosco dirigindo a Alta Floresta. O resto da equipe já
despertou e está no briefing da segunda parte da operação. A
Operação Ponta de Lança continua... em defesa do Parque
Nacional Juruena, em defesa do patrimônio ambiental da
sociedade brasileira.

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