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11/10/08 - 12h14 - Atualizado em 11/10/08 - 12h14

Fotógrafo Ricardo Beliel revela os efeitos do desenvolvimento na Amazônia

'O que mais me chocou foi a conivência do poder público com a destruição'.
Jornalista registrou o avanço de estradas, agricultores e madeireiras.

Dennis Barbosa e Maria Luiza Silveira(*) Do Globo Amazônia, em São Paulo

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Em três décadas de trabalho como fotógrafo e jornalista, o carioca Ricardo Beliel visitou a Amazônia dezenas de vezes a serviço de veículos de comunicação brasileiros e estrangeiros, além de organizações não-governamentais. Pôde acompanhar de perto o aumento da presença humana e seus efeitos sobre a floresta. Presenciou a abertura de estradas, a criação de cidades e os primeiros contatos de tribos indígenas isoladas com o homem branco.

“A princípio, sempre procuro ter uma visão positiva das coisas, do ser humano, mas como jornalista é impossível evitar ter uma visão crítica e de denúncia disso tudo, porque a maneira de também valorizar a natureza na Amazônia é denunciar o que se faz de errado, é denunciar aquilo que se faz para a destruição desse ecossistema”, conta. “Em quase 30 anos de reportagens na Amazônia, o que mais me chocou foi a conivência do poder público com a destruição, como a retirada ilegal de madeira da floresta”, comenta Beliel.

 

Veja a galeria com as fotos de Ricardo Beliel

 

Perigos

 

Ser uma testemunha da destruição algumas vezes expôs o fotógrafo a perigos. “Uma vez fui ameaçado por um prefeito que disse que eu sairia de sua cidade em um caixão feito com madeira extraída ilegalmente da floresta. Logo depois, sobrevoando essa região em um avião do Exército, percebi que a quantidade de madeira boiando no rio daria para fazer não apenas o meu caixão, mas de toda a população do município”.

 

Ele conta que, em outra situação, foi cercado por plantadores de soja no centro de Santarém (PA) que queriam agredi-lo por seu trabalho de denúncia. Mas quem levou a pior foi um outro fotógrafo, da imprensa local, que estava posicionado para registrar a iminente violência. Quando viram que estavam sendo fotografados, os plantadores partiram para cima dele e deixaram Beliel de lado.

 

O sul do Pará é uma região que chamou muito a atenção do fotógrafo nestes anos. Ele chegou a ver esta área ainda coberta de floresta. “Hoje há regiões ali que são quase uma paisagem marciana. Em certas épocas do ano, é impossível transitar pelas estradas por causa da erosão”.

Ele acompanhou a abertura da rodovia Transamazônica no estado. “A estrada, em vez de incorporar o modo de vida local, trouxe muitos migrantes cearenses, maranhenses, paranaenses e gaúchos que não tinham adaptação à vida na floresta. Sua cultura era de pecuária”, conta. 

 

Durante a abertura da mesma estrada ele conheceu indígenas que nunca tinham tido contato com o homem branco. “Os índios Arara eram um povo nômade que se transferia de acordo com suas necessidades. A estrada separou dois grupos deles, que viam os tratores e pensavam que eram grandes monstros comendo a floresta. Pior que isso, cada tribo pensava que esses ‘monstros’ haviam comido o outro grupo, ao norte e ao sul da estrada. Eles não acreditavam que seus parentes estavam vivos. No final dos anos 80, os dois grupos foram postos em contato pela Funai e foi criada uma reserva para eles. Hoje vivem numa região extremamente reduzida, dominada por madeireiros”.

Beliel conta que fotografar a Amazônia causa emoções extremas e conflitantes: “O impacto é extremamente forte e muitas vezes triste, muitas vezes decepcionante para mim, como ser humano. Em outras ocasiões, ao contrário, é uma celebração da vida. Muitas vezes a Amazônia é uma releitura da nossa vida, é uma maneira de ver o planeta de outra forma, porque não é só destruição. Há muito de uma atitude em relação ao tempo, às nossas ambições como seres humanos, que ainda se pode ter na Amazônia como um ensinamento bom”.

Para quem se preocupa com a região mas se sente incapaz de colaborar com sua conservação por estar longe, o fotógrafo deixa a dica: “Do lado de cá, na cidade, o que eu posso fazer para evitar isso [a devastação], não só como jornalista denunciando essa situação, é agir como consumidor. Consumir produtos de forma a não alimentar uma indústria ilegal e destrutiva da floresta. Ter um consumo consciente de produtos da floresta, como madeira certificada ou produtos agrícolas que não sejam de produtores que estejam ajudando a devastar a Amazônia”.

 

(*) Colaborou do Fantástico, no Rio de Janeiro.

 

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