Em três décadas de trabalho como fotógrafo e jornalista, o
carioca Ricardo Beliel visitou a Amazônia dezenas de vezes a
serviço de veículos de comunicação brasileiros e
estrangeiros, além de organizações não-governamentais. Pôde
acompanhar de perto o aumento da presença humana e seus efeitos
sobre a floresta. Presenciou a abertura de estradas, a criação
de cidades e os primeiros contatos de tribos indígenas isoladas
com o homem branco.
“A princípio, sempre procuro ter uma visão
positiva das coisas, do ser humano, mas como jornalista é
impossível evitar ter uma visão crítica e de denúncia disso
tudo, porque a maneira de também valorizar a natureza na
Amazônia é denunciar o que se faz de errado, é denunciar aquilo
que se faz para a destruição desse ecossistema”, conta. “Em
quase 30 anos de reportagens na Amazônia, o que mais me chocou
foi a conivência do poder público com a destruição, como a
retirada ilegal de madeira da floresta”, comenta Beliel.
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Perigos
Ser uma testemunha da destruição algumas vezes expôs o fotógrafo a perigos. “Uma vez fui ameaçado por um prefeito que disse que eu sairia de sua cidade em um caixão feito com madeira extraída ilegalmente da floresta. Logo depois, sobrevoando essa região em um avião do Exército, percebi que a quantidade de madeira boiando no rio daria para fazer não apenas o meu caixão, mas de toda a população do município”.
Ele conta que, em outra situação, foi cercado por plantadores de soja no centro de Santarém (PA) que queriam agredi-lo por seu trabalho de denúncia. Mas quem levou a pior foi um outro fotógrafo, da imprensa local, que estava posicionado para registrar a iminente violência. Quando viram que estavam sendo fotografados, os plantadores partiram para cima dele e deixaram Beliel de lado.
O sul do Pará é uma região que chamou muito a atenção do
fotógrafo nestes anos. Ele chegou a ver esta área ainda coberta
de floresta. “Hoje há regiões ali que são quase uma paisagem
marciana. Em certas épocas do ano, é impossível transitar pelas
estradas por causa da erosão”.
Ele acompanhou a abertura da rodovia
Transamazônica no estado. “A estrada, em vez de incorporar o
modo de vida local, trouxe muitos migrantes cearenses,
maranhenses, paranaenses e gaúchos que não tinham adaptação à
vida na floresta. Sua cultura era de pecuária”, conta.
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Durante a abertura da mesma estrada ele conheceu indígenas que
nunca tinham tido contato com o homem branco. “Os índios Arara
eram um povo nômade que se transferia de acordo com suas
necessidades. A estrada separou dois grupos deles, que viam os
tratores e pensavam que eram grandes monstros comendo a
floresta. Pior que isso, cada tribo pensava que esses ‘monstros’
haviam comido o outro grupo, ao norte e ao sul da estrada. Eles
não acreditavam que seus parentes estavam vivos. No final dos
anos 80, os dois grupos foram postos em contato pela Funai e foi
criada uma reserva para eles. Hoje vivem numa região
extremamente reduzida, dominada por madeireiros”.
Beliel conta que fotografar a Amazônia causa
emoções extremas e conflitantes: “O impacto é extremamente forte
e muitas vezes triste, muitas vezes decepcionante para mim, como
ser humano. Em outras ocasiões, ao contrário, é uma celebração
da vida. Muitas vezes a Amazônia é uma releitura da nossa vida,
é uma maneira de ver o planeta de outra forma, porque não é só
destruição. Há muito de uma atitude em relação ao tempo, às
nossas ambições como seres humanos, que ainda se pode ter na
Amazônia como um ensinamento bom”.
Para quem se preocupa com a região mas se sente
incapaz de colaborar com sua conservação por estar longe, o
fotógrafo deixa a dica: “Do lado de cá, na cidade, o que eu
posso fazer para evitar isso [a devastação], não só como
jornalista denunciando essa situação, é agir como consumidor.
Consumir produtos de forma a não alimentar uma indústria ilegal
e destrutiva da floresta. Ter um consumo consciente de produtos
da floresta, como madeira certificada ou produtos agrícolas que
não sejam de produtores que estejam ajudando a devastar a Amazônia”.
(*) Colaborou do Fantástico, no Rio de Janeiro.

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