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06/11/08 - 09h41 - Atualizado em 06/11/08 - 09h55

Porto Velho-Manaus deve ser substituída por ferrovia, defende ONG

Para ambientalistas, reforma da estrada trará desmatamento.
Obras na rodovia foram suspensas pelo Ministério do Meio Ambiente.

Dennis Barbosa Do Globo Amazônia, em São Paulo

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Manaus, apesar de ser um pólo industrial e importante metrópole regional, não tem ligação terrestre com o Centro-Sul do país. A capital de 1,7 milhão de habitantes encontra-se cercada de floresta por todos os lados e só se chega a ela por via fluvial ou aérea. Por isso, a obra de asfaltamento da BR-319, que liga Manaus a Porto Velho, é uma obra muito esperada. Para a ONG Preserve Amazônia, no entanto, a melhor alternativa seria construir uma ferrovia em vez de recuperar a estrada.

A proposta se baseia no fato de que, como se observa em outras regiões da Amazônia, como o entorno da BR-163, no Pará e em Mato Grosso, a abertura de estradas em meio à floresta acaba se tornando um vetor de desmatamento.

O próprio ministro do Meio Ambiente, Carlos Minc, demonstrou preocupação com a possibilidade de a BR-319 gerar devastação descontrolada. Em setembro, ele suspendeu por dois meses o processo de análise do licenciamento ambiental do asfaltamento para que um grupo de trabalho - que reúne governo federal, órgãos ambientais, os governos estaduais do Amazonas e de Rondônia, além de universidades federais desses estados - proponha um estudo da viabilidade ambiental do empreendimento.

O estudo deve incluir um plano para implantação de sete florestas nacionais, já criadas, mas que ainda estão no papel, e mais três florestas estaduais na área. "Não somos e nem seremos o carimbador da irresponsabilidade. Essa estrada fica no coração da Amazônia. Se não tiver a garantia de preservação, acho que vai acontecer uma tragédia ambiental sem precedentes", disse o ministro, quando anunciou a suspensão, que acaba no dia 24 de novembro.

No entanto, segundo a organização Preserva Amazônia, nem mesmo a criação de florestas nacionais evitaria o desmatamento na região. Segundo o presidente da ONG, Marcos Mariani, o plano de pavimentação parte do princípio de que o governo terá capacidade de controlar o desenvolvimento da região depois que a estrada estiver asfaltada, algo que teria demonstrado não conseguir em outras partes da Amazônia. “O zoneamento ecológico só não adianta. Esse filme a gente já viu. O controle não é eficiente em outras partes onde já está asfaltado. Isso é uma utopia”, comenta Mariani.

Ele afirma que, mesmo antes de ocorrer o asfaltamento, a devastação já aumenta: “Pelo simples fato de que vão construir uma estrada, isso cria possibilidades econômicas e leva ao desmatamento”.

Mariani defende que, em vez da estrada, seja construída uma ferrovia no local. “A rodovia tem pouca durabilidade”, observa. De fato, a BR-319, aberta durante o regime militar, foi “engolida” pela floresta pela dificuldade de manutenção. Atualmente, ela é intransitável em grande parte de seus 880 quilômetros. Desde os anos 80 não há ônibus que interliguem as capitais de Rondônia e Manaus. A viagem de barco pelo Rio Madeira, por sua vez, demora dias.

Com o trem, segundo Mariani, o trajeto poderia ser feito em cerca de 10 horas, uma alternativa interessante para os passageiros que não podem arcar com o custo das passagens aéreas. E, de acordo com o presidente da Preserve Amazônia, menos de 10% das pessoas que se deslocam naquela região têm veículo próprio, ou seja, de qualquer forma teriam de recorrer ao transporte coletivo.

Ao mesmo tempo, a estrada de ferro inibiria a derrubada indiscriminada da mata, já que não permite o livre tráfego de qualquer veículo, como acontece com a rodovia. “O investimento para a construção da ferrovia é mais alto, mas o valor da floresta que seria conservada é muito mais alto”, diz Mariani.

Ele defende que o governo deveria captar recursos no exterior por meio de créditos de carbono oriundos da troca de modal de transporte. Ou seja, ao ser adotado o transporte ferroviário entre Manaus e Porto Velho, uma certa área de floresta seria conservada e as reservas de carbono que ela representa poderiam ser convertidos em dinheiro. É o chamado “serviço ambiental” que a mata presta ao planeta.

A organização de Mariani entrou na Justiça para que as obras de rodovias previstas no Plano de Aceleração do Crescimento (PAC) fossem revistas e fosse considerada a alternativa do modal ferroviário. Além da BR-319, estão em questão as rodovias BR-163, BR-156, BR-230 e BR-364.

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