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14/11/08 - 18h39 - Atualizado em 16/11/08 - 09h01

Contra desmatamento, Maggi defende conversão de pastos em plantações

Governador de MT respondeu a perguntas enviadas por internautas.
Ele afirma que não é vantajoso para seu estado derrubar florestas.

Iberê Thenório Do Globo Amazônia, em São Paulo

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O governador de Mato Grosso, Blairo Maggi.

O governador de Mato Grosso, Blairo Maggi (PR), é uma figura que suscita paixões. Quando o Globo Amazônia anunciou a realização de uma entrevista interativa, em que ele responderia a perguntas enviadas pelos internautas, muitas pessoas enviaram e-mails com ofensas irreproduzíveis, criticando sua defesa do agronegócio. Outras, teceram elogios longos, demonstrando admiração pelo empreendedorismo de Maggi e pelo seu governo em Mato Grosso.

Respondendo às questões colocadas pelos leitores, o governador argumenta que já não compensa economicamente ao estado transformar florestas em pastos ou plantações, e que a pecuária deve ser aprimorada para ceder espaço ao cultivo de grãos. Maggi também questiona as estatísticas de desmatamento divulgadas pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) e defende subsídios agrícolas para evitar que assentados da reforma agrária desmatem além do limite legal.

Mais de 70 internautas enviaram suas perguntas. Para atender ao maior número possível de leitores, muitas questões foram condensadas em uma só, e algumas tiveram que ser deixadas de fora. Confira abaixo a entrevista com Blairo Maggi.

Cicero Emerson, José Gonçalves de Sena, Fernando Luiz Ribeiro da Rocha, Ivo Oliveira Ambrosio, Hélcio Batista da Silva e Francisco Pereira Carvalho – O que o governo de Mato Grosso tem feito para diminuir o desmatamento?

Maggi - Se você olhar os gráficos desde 1986 até 2007, verá que de 2003 para cá houve um decréscimo do desmatamento da região amazônica de Mato Grosso da ordem de 80%. Em nenhum momento, de 1986 até agora, tivemos níveis tão baixos de desmatamento no estado. Isso significa que as políticas adotadas pelo governo do estado são eficazes e vêm dando resultado, pois não houve de 2003 para cá um repique desse desmatamento.

 

 

  • Aspas

    As políticas públicas tanto do governo federal quanto do governo do estado estão na direção certa da redução do desmatamento."


Se você olhar mês a mês, há alguns em que Mato Grosso cresceu em relação ao Pará, no mês seguinte diminuiu, mas o que importa é a série histórica, de 1986 até agora, e isso demonstra que as políticas públicas tanto do governo federal quanto do governo do estado estão na direção certa da redução do desmatamento.

Até 2005, tínhamos uma fundação que tomava conta do meio ambiente no estado. Nós tiramos da administração deles e passamos para a administração direta, que foi efetivar a Secretaria de Meio Ambiente, a Sema de Mato Grosso. Com isso, houve a possibilidade de ter mais recursos, concursos para contratação de pessoas, a contratação de técnicos, a implantação efetiva do sistema de licenciamento ambiental único, equipar essa secretaria não só com aviões, mas também com helicópteros e, efetivamente, acompanhar esses focos de desmatamento e fazer a punição.

O estado tem aplicado multas pesadas, tem feito embargo dessas áreas. O estado tem feito o seu trabalho, e o seu trabalho é punir, fazer com que isso sirva de exemplo e que haja uma diminuição [no desmatamento].

Hazen - Com uma demanda crescente por grãos, é possível aumentar a área cultivada sem derrubar mais mata?

Maggi - Com todo o conhecimento técnico agronômico que se tem hoje, é possível. O Mato Grosso é o primeiro produtor de soja nacional e também o primeiro de algodão, o segundo de milho, o terceiro de arroz e o primeiro em pecuária de corte. E também temos um pouco de cana-de-açúcar, pois o estado tem biocombustível.

Dos nossos 906 mil quilômetros quadrados, 7,8% estão destinados à agricultura. A pecuária ocupa 25% do território de Mato Grosso. Ocupamos muita área para a quantidade de gado que temos. O Mato Grosso tem 26 milhões de cabeças de bovinos e ocupa praticamente 25 milhões de hectares. É uma cabeça por hectare, e isso é uma performance muito ruim. A proposta que temos para elevar a produção de grãos é diminuir o tamanho da área necessária para a pecuária. 

  • Aspas

    A proposta que temos para elevar a produção de grãos é diminuir o tamanho da área necessária para a pecuária. "

A política que nós adotamos neste momento é fazer com que os pecuaristas abram espaço para a agricultura, e essa quantidade de gado que abre espaço vai para os confinamentos, aproveitando resíduos agrícolas. Então podemos, sim, até duplicar a quantidade de grãos produzida hoje sem ter a necessidade de ter que usar novas áreas nem para a pecuária e nem para a agricultura.


André Scholl de Almeira – No começo do ano, o senhor questionou os dados de desmatamento divulgados pelo Instituto nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). O governo de Mato Grosso ainda discorda desses dados?

Maggi - Não é que não acreditemos no Inpe. O Inpe é um instituto mundialmente reconhecido e nós também o reconhecemos como uma instituição séria e que merece toda a credibilidade. Porém, o sistema Deter, que tem a função de detectar o desmatamento em tempo real, não vem funcionando direito. Ele mistura o desmatamento que efetivamente aconteceu com a degradação progressiva de uma floresta, que pode ser por fogo, e esse fogo pode ser incêndio, causado por alguém ou incêndio acidental.

Temos ido a campo checar 100% dos polígonos alertados pelo Deter. O resultado é que apenas 10% dos pontos levantados pelo Deter correspondem a pontos do desmatamento deste momento, do desmatamento atual.

Isso traz algumas complicações, mascara alguns números porque acaba trazendo desmatamento antigo, que já foi computado em algum momento nas estatísticas, como se ele fosse atual. O estado já fez uma proposta ao Inpe e também ao governo federal para que eles coloquem técnicos deles para acompanhar os nossos técnicos que vão ao campo, para redimir essas dúvidas. Infelizmente, isso ainda não foi feito. Mas em 100% cento das áreas em que encontramos desmatamento efetivo, elas estão sendo multadas, estão sendo embargadas.

Samuel Ferraz Correia - Há uma parte da população que está empregada na cadeia de produção de madeira, e muitas vezes essa madeira tem origem ilegal. Como garantir emprego para essas pessoas, seja porque a madeira vai acabar, seja porque muitas madeireiras estão sendo fechadas pela fiscalização?

Maggi - O estado vem fazendo uma transformação no sentido de não deixar que as madeireiras trabalhem na ilegalidade, e trazê-las para a legalidade. Desde 2005, quando assumimos a gestão florestal, conseguimos avançar muito nesse aspecto. Temos dados que comprovam que, no ano de 2008, tivemos mais projetos de manejo aprovados do que os que deram entrada na nossa secretaria. Isso significa que os projetos que estavam emperrados, que tinham problemas de parte legal para liberar, e foram liberados depois de sanados esses problemas.

 

  • Aspas

    Em torno de 80% das madeireiras do estado de Mato Grosso estão em situação totalmente legal."

Então hoje podemos dizer que em torno de 80% das madeireiras do estado de Mato Grosso estão em situação totalmente legal. Ainda 20% delas requerem algum ajustamento, o manejo não está bem feito ou algo parecido. Isso demonstra que o processo da indústria madeireira em Mato Grosso está caminhando para a legalidade, para a formalidade, e aí as pessoas não vão perder esses empregos.

Wilmar Luiz Stockmann - Como resolver o problema dos assentamentos? Como o estado pode ajudar os assentados a conseguir se manter sem derrubar a floresta, e com pouco espaço para cultivo?

Maggi - Essa é uma situação bem complicada. O erro inicial do governo foi ter permitido a reforma agrária nessas regiões. Você tem a oportunidade de ocupação de apenas 20% do território, e alguém que tem 100 hectares acaba ficando com apenas 20 hectares para a produção, e de fato ele não consegue, nesses 20 hectares, sustentar a família dele com a produção própria de alimentos e gerar superávit para que ele possa comprar roupas, pagar estudo, pagar energia elétrica, telefone, enfim, viver dessa terra.

 

 

  • Aspas

    A sociedade brasileira terá que fazer uma discussão sobre os subsídios para a atividade agrícola dos pequenos produtores, dos assentados."

A sociedade brasileira terá que fazer uma discussão sobre os subsídios para a atividade agrícola dos pequenos produtores, dos assentados. A Europa inteira faz isso, os Estados Unidos fazem isso, na Ásia também se faz.
Já que não podemos flexibilizar a legislação ambiental, já que desmatar não é mais permitido, a única alternativa que vejo para a manutenção dessas atividades agrícolas no interior do estado, no interior da Amazônia, é de fato uma política de preços mínimos, de geração de renda e de oportunidade para aqueles que estão lá.

Manoel Augusto Greimel – O senhor é a favor de diminuir a reserva legal, de 80% para 50%? As áreas de preservação permanente, como as matas ciliares e áreas de encosta deveriam entrar no cálculo da reserva legal?

Maggi - Concordo que as áreas de preservação permanente devam fazer parte da reserva legal. Não sei qual foi o iluminado que pensou que poderia ser diferente. Quanto à reserva legal, essa é uma discussão que não está aberta. Nós não discutimos essa alteração de 20 para 50%. O que se discute em Mato Grosso é como trazer para a legalidade todos aqueles que tiveram as suas propriedades convertidas antes da mudança da legislação em 1998, onde se permitia 50%.

Nós propusemos agora, por meio da nossa Assembléia Legislativa, um programa chamado “MT Legal”, que é para trazer todas essas pessoas que têm esses problemas ambientais para a legalidade. Neste momento, nós discutimos isso com o Ministério do Meio Ambiente, com o Ibama, para que eles também concordem com essa legislação estadual, para que a gente não tenha uma legislação estadual que seja conflitante com a nossa realidade. Temos que fazer com que essa reserva legal que antes era de 50%, em que foi feita a conversão naquela época, seja aceita pelo órgão ambiental, e dar a regularidade ambiental da propriedade.

Milton Ademir Blank – Com a criação do programa “MT Legal”, muitos proprietários já estão procurando entrar com o processo de regularização ambiental, mas agora o Ministério Publico Federal começa a questionar a constitucionalidade dessa lei. O lançamento do programa não foi feito de forma precipitada?

Maggi - Nós sabemos do risco que estamos correndo, porém nossa lei foi aprovada na assembléia legislativa, mas a Secretaria de Meio Ambiente ainda não está aceitando processos dessa forma. Nós não regulamentamos a lei ainda para fazer isso, justamente para ter essa discussão com o Ministério do Meio Ambiente, com o Ibama, e o entendimento com o Ministério Público Federal e Estadual. O internauta tem toda a razão quando pergunta. Nós propusemos a lei, mas ainda não colocamos ela em prática.

Maria Natália Ávila – Grande parte da produção agrícola do estado é baseada na monocultura, principalmente da soja. Isso não poderia causar um desgaste irreversível nas terras de Mato Grosso a longo prazo? 

  • Aspas

    A soja fez com que o Centro-Oeste brasileiro, os cerrados brasileiros se transformassem em algo melhor do que eram antes, pois a fertilidade natural dessas terras é muito ruim."

 

Maggi - Na realidade, a soja fez com que o Centro-Oeste brasileiro, os cerrados brasileiros se transformassem em algo melhor do que eram antes, pois a fertilidade natural dessas terras é muito ruim. Depois de muitos anos de produção de soja você tem índices elevados de fósforo, de potássio, de matéria orgânica, de microelementos, e um solo fisicamente melhor estruturado pela presença da matéria orgânica.

 

Isso possibilita a implantação de outras culturas, como a cana-de-açúcar, o algodão, o milho, proporcionando a rotação de culturas nessas terras. O que a monocultura tem de ruim é que estabelecemos pragas, algumas doenças que ao passar do tempo acabam trazendo grandes problemas para a própria cultura da soja. Então, se torna muito importante a rotação de cultura.

Agora, nessa rotação de cultura com a soja também precisam ser observados os aspectos econômicos. Por exemplo, produzir milho aqui em Mato Grosso é muito bom para o solo, é muito bom para a natureza, mas muitas das vezes não é muito bom para o bolso dos produtores, porque a atividade econômica acaba não sendo remunerada, e aí tem que ter subsídios do governo ou coisa parecida.

Mas eu queria fazer um parêntese: o estado de Mato Grosso não pratica monocultura. Ele tem uma cultura principal, que é a soja, e dentro da cultura da soja se faz rotação com algodão, com milho e com pecuária também.

Maria José Gomes - Sendo MT um estado tão bonito, com tantas belezas naturais, seu potencial turístico não está sendo mal aproveitado? Não poderiam ser criados mais parques e reservas para visitação?

Maggi - Mato Grosso tem mesmo muitas belezas naturais, mas carece ainda de infraestrutura para que isso se torne um grande negócio para o estado a ponto de competir com as outras atividades econômicas que nós já temos.

Temos feito um esforço muito grande na área de turismo para atrair novos turistas, grupos de fora para cá. Mas os vôos que vêm para Mato Grosso são limitados, nós ainda temos uma rede de hotéis e pousadas aquém da necessidade. Existem vários parques e reservas que são muito bonitos, e estamos trabalhando para fazer as liberações para a visitação pública.

 

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