O governador de Mato Grosso, Blairo Maggi.
O governador de Mato Grosso, Blairo Maggi (PR), é uma figura que
suscita paixões. Quando o Globo Amazônia
anunciou a realização de uma entrevista interativa, em que ele
responderia a perguntas enviadas pelos internautas, muitas
pessoas enviaram e-mails com ofensas irreproduzíveis, criticando
sua defesa do agronegócio. Outras, teceram elogios longos,
demonstrando admiração pelo empreendedorismo de Maggi e pelo seu
governo em Mato Grosso.
Respondendo às questões colocadas pelos leitores,
o governador argumenta que já não compensa economicamente ao
estado transformar florestas em pastos ou plantações, e que a
pecuária deve ser aprimorada para ceder espaço ao cultivo de
grãos. Maggi também questiona as estatísticas de desmatamento
divulgadas pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe)
e defende subsídios agrícolas para evitar que assentados da
reforma agrária desmatem além do limite legal.
Mais de 70 internautas enviaram suas perguntas.
Para atender ao maior número possível de leitores, muitas
questões foram condensadas em uma só, e algumas tiveram que ser
deixadas de fora. Confira abaixo a entrevista com Blairo Maggi.
Cicero Emerson, José Gonçalves de Sena, Fernando Luiz
Ribeiro da Rocha, Ivo Oliveira Ambrosio, Hélcio Batista da
Silva e Francisco Pereira Carvalho – O que o governo de Mato
Grosso tem feito para diminuir o desmatamento?
Maggi - Se você olhar os gráficos desde 1986
até 2007, verá que de 2003 para cá houve um decréscimo do
desmatamento da região amazônica de Mato Grosso da ordem de 80%.
Em nenhum momento, de 1986 até agora, tivemos níveis tão baixos
de desmatamento no estado. Isso significa que as políticas
adotadas pelo governo do estado são eficazes e vêm dando
resultado, pois não houve de 2003 para cá um repique desse desmatamento.
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As políticas públicas tanto do governo federal quanto do governo do estado estão na direção certa da redução do desmatamento."
Se você olhar mês a mês, há alguns em que Mato
Grosso cresceu em relação ao Pará, no mês seguinte diminuiu, mas
o que importa é a série histórica, de 1986 até agora, e isso
demonstra que as políticas públicas tanto do governo federal
quanto do governo do estado estão na direção certa da redução do
desmatamento.
Até 2005, tínhamos uma fundação que tomava conta
do meio ambiente no estado. Nós tiramos da administração deles e
passamos para a administração direta, que foi efetivar a
Secretaria de Meio Ambiente, a Sema de Mato Grosso. Com isso,
houve a possibilidade de ter mais recursos, concursos para
contratação de pessoas, a contratação de técnicos, a implantação
efetiva do sistema de licenciamento ambiental único, equipar
essa secretaria não só com aviões, mas também com helicópteros
e, efetivamente, acompanhar esses focos de desmatamento e fazer
a punição.
O estado tem aplicado multas pesadas, tem feito
embargo dessas áreas. O estado tem feito o seu trabalho, e o seu
trabalho é punir, fazer com que isso sirva de exemplo e que haja
uma diminuição [no desmatamento].
Hazen - Com uma demanda crescente por grãos, é possível
aumentar a área cultivada sem derrubar mais mata?
Maggi - Com todo o conhecimento técnico
agronômico que se tem hoje, é possível. O Mato Grosso é o
primeiro produtor de soja nacional e também o primeiro de
algodão, o segundo de milho, o terceiro de arroz e o primeiro em
pecuária de corte. E também temos um pouco de cana-de-açúcar,
pois o estado tem biocombustível.
Dos nossos 906 mil quilômetros quadrados, 7,8%
estão destinados à agricultura. A pecuária ocupa 25% do
território de Mato Grosso. Ocupamos muita área para a quantidade
de gado que temos. O Mato Grosso tem 26 milhões de cabeças de
bovinos e ocupa praticamente 25 milhões de hectares. É uma
cabeça por hectare, e isso é uma performance muito ruim. A
proposta que temos para elevar a produção de grãos é diminuir o
tamanho da área necessária para a pecuária.
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A proposta que temos para elevar a produção de grãos é diminuir o tamanho da área necessária para a pecuária. "
A política que nós adotamos neste momento é fazer com que os
pecuaristas abram espaço para a agricultura, e essa quantidade
de gado que abre espaço vai para os confinamentos, aproveitando
resíduos agrícolas. Então podemos, sim, até duplicar a
quantidade de grãos produzida hoje sem ter a necessidade de ter
que usar novas áreas nem para a pecuária e nem para a
agricultura.
André Scholl de Almeira – No começo do ano, o senhor
questionou os dados de desmatamento divulgados pelo
Instituto nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). O governo
de Mato Grosso ainda discorda desses dados?
Maggi - Não é que não acreditemos no Inpe. O
Inpe é um instituto mundialmente reconhecido e nós também o
reconhecemos como uma instituição séria e que merece toda a
credibilidade. Porém, o sistema Deter, que tem a função de
detectar o desmatamento em tempo real, não vem funcionando
direito. Ele mistura o desmatamento que efetivamente aconteceu
com a degradação progressiva de uma floresta, que pode ser por
fogo, e esse fogo pode ser incêndio, causado por alguém ou
incêndio acidental.
Temos ido a campo checar 100% dos polígonos
alertados pelo Deter. O resultado é que apenas 10% dos pontos
levantados pelo Deter correspondem a pontos do desmatamento
deste momento, do desmatamento atual.
Isso traz algumas complicações, mascara alguns
números porque acaba trazendo desmatamento antigo, que já foi
computado em algum momento nas estatísticas, como se ele fosse
atual. O estado já fez uma proposta ao Inpe e também ao governo
federal para que eles coloquem técnicos deles para acompanhar os
nossos técnicos que vão ao campo, para redimir essas dúvidas.
Infelizmente, isso ainda não foi feito. Mas em 100% cento das
áreas em que encontramos desmatamento efetivo, elas estão sendo
multadas, estão sendo embargadas.
Samuel Ferraz Correia - Há uma parte da população que
está empregada na cadeia de produção de madeira, e muitas
vezes essa madeira tem origem ilegal. Como garantir emprego
para essas pessoas, seja porque a madeira vai acabar, seja
porque muitas madeireiras estão sendo fechadas pela
fiscalização?
Maggi - O estado vem fazendo uma transformação
no sentido de não deixar que as madeireiras trabalhem na
ilegalidade, e trazê-las para a legalidade. Desde 2005, quando
assumimos a gestão florestal, conseguimos avançar muito nesse
aspecto. Temos dados que comprovam que, no ano de 2008, tivemos
mais projetos de manejo aprovados do que os que deram entrada na
nossa secretaria. Isso significa que os projetos que estavam
emperrados, que tinham problemas de parte legal para liberar, e
foram liberados depois de sanados esses problemas.
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Em torno de 80% das madeireiras do estado de Mato Grosso estão em situação totalmente legal."
Então hoje podemos dizer que em torno de 80% das madeireiras do
estado de Mato Grosso estão em situação totalmente legal. Ainda
20% delas requerem algum ajustamento, o manejo não está bem
feito ou algo parecido. Isso demonstra que o processo da
indústria madeireira em Mato Grosso está caminhando para a
legalidade, para a formalidade, e aí as pessoas não vão perder
esses empregos.
Wilmar Luiz Stockmann - Como resolver o problema dos
assentamentos? Como o estado pode ajudar os assentados a
conseguir se manter sem derrubar a floresta, e com pouco
espaço para cultivo?
Maggi - Essa é uma situação bem complicada. O
erro inicial do governo foi ter permitido a reforma agrária
nessas regiões. Você tem a oportunidade de ocupação de apenas
20% do território, e alguém que tem 100 hectares acaba ficando
com apenas 20 hectares para a produção, e de fato ele não
consegue, nesses 20 hectares, sustentar a família dele com a
produção própria de alimentos e gerar superávit para que ele
possa comprar roupas, pagar estudo, pagar energia elétrica,
telefone, enfim, viver dessa terra.
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A sociedade brasileira terá que fazer uma discussão sobre os subsídios para a atividade agrícola dos pequenos produtores, dos assentados."
A sociedade brasileira terá que fazer uma discussão sobre os
subsídios para a atividade agrícola dos pequenos produtores, dos
assentados. A Europa inteira faz isso, os Estados Unidos fazem
isso, na Ásia também se faz.
Já que não podemos
flexibilizar a legislação ambiental, já que desmatar não é mais
permitido, a única alternativa que vejo para a manutenção dessas
atividades agrícolas no interior do estado, no interior da
Amazônia, é de fato uma política de preços mínimos, de geração
de renda e de oportunidade para aqueles que estão lá.
Manoel Augusto Greimel – O senhor é a favor de diminuir
a reserva legal, de 80% para 50%? As áreas de preservação
permanente, como as matas ciliares e áreas de encosta
deveriam entrar no cálculo da reserva legal?
Maggi - Concordo que as áreas de preservação
permanente devam fazer parte da reserva legal. Não sei qual foi
o iluminado que pensou que poderia ser diferente. Quanto à
reserva legal, essa é uma discussão que não está aberta. Nós não
discutimos essa alteração de 20 para 50%. O que se discute em
Mato Grosso é como trazer para a legalidade todos aqueles que
tiveram as suas propriedades convertidas antes da mudança da
legislação em 1998, onde se permitia 50%.
Nós propusemos agora, por meio da nossa Assembléia
Legislativa, um programa chamado “MT Legal”, que é para trazer
todas essas pessoas que têm esses problemas ambientais para a
legalidade. Neste momento, nós discutimos isso com o Ministério
do Meio Ambiente, com o Ibama, para que eles também concordem
com essa legislação estadual, para que a gente não tenha uma
legislação estadual que seja conflitante com a nossa realidade.
Temos que fazer com que essa reserva legal que antes era de 50%,
em que foi feita a conversão naquela época, seja aceita pelo
órgão ambiental, e dar a regularidade ambiental da propriedade.
Milton Ademir Blank – Com a criação do programa “MT
Legal”, muitos proprietários já estão procurando entrar com
o processo de regularização ambiental, mas agora o
Ministério Publico Federal começa a questionar a
constitucionalidade dessa lei. O lançamento do programa não
foi feito de forma precipitada?
Maggi - Nós sabemos do risco que estamos
correndo, porém nossa lei foi aprovada na assembléia
legislativa, mas a Secretaria de Meio Ambiente ainda não está
aceitando processos dessa forma. Nós não regulamentamos a lei
ainda para fazer isso, justamente para ter essa discussão com o
Ministério do Meio Ambiente, com o Ibama, e o entendimento com o
Ministério Público Federal e Estadual. O internauta tem toda a
razão quando pergunta. Nós propusemos a lei, mas ainda não
colocamos ela em prática.
Maria Natália Ávila – Grande parte da produção agrícola
do estado é baseada na monocultura, principalmente da soja.
Isso não poderia causar um desgaste irreversível nas terras
de Mato Grosso a longo prazo?
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A soja fez com que o Centro-Oeste brasileiro, os cerrados brasileiros se transformassem em algo melhor do que eram antes, pois a fertilidade natural dessas terras é muito ruim."
Maggi - Na realidade, a soja fez com que o Centro-Oeste brasileiro, os cerrados brasileiros se transformassem em algo melhor do que eram antes, pois a fertilidade natural dessas terras é muito ruim. Depois de muitos anos de produção de soja você tem índices elevados de fósforo, de potássio, de matéria orgânica, de microelementos, e um solo fisicamente melhor estruturado pela presença da matéria orgânica.
Isso possibilita a implantação de outras culturas, como a
cana-de-açúcar, o algodão, o milho, proporcionando a rotação de
culturas nessas terras. O que a monocultura tem de ruim é que
estabelecemos pragas, algumas doenças que ao passar do tempo
acabam trazendo grandes problemas para a própria cultura da
soja. Então, se torna muito importante a rotação de cultura.
Agora, nessa rotação de cultura com a soja também
precisam ser observados os aspectos econômicos. Por exemplo,
produzir milho aqui em Mato Grosso é muito bom para o solo, é
muito bom para a natureza, mas muitas das vezes não é muito bom
para o bolso dos produtores, porque a atividade econômica acaba
não sendo remunerada, e aí tem que ter subsídios do governo ou
coisa parecida.
Mas eu queria fazer um parêntese: o estado de Mato
Grosso não pratica monocultura. Ele tem uma cultura principal,
que é a soja, e dentro da cultura da soja se faz rotação com
algodão, com milho e com pecuária também.
Maria José Gomes - Sendo MT um estado tão bonito, com
tantas belezas naturais, seu potencial turístico não está
sendo mal aproveitado? Não poderiam ser criados mais parques
e reservas para visitação?
Maggi - Mato Grosso tem mesmo muitas belezas
naturais, mas carece ainda de infraestrutura para que isso se
torne um grande negócio para o estado a ponto de competir com as
outras atividades econômicas que nós já temos.
Temos feito um esforço muito grande na área de
turismo para atrair novos turistas, grupos de fora para cá. Mas
os vôos que vêm para Mato Grosso são limitados, nós ainda temos
uma rede de hotéis e pousadas aquém da necessidade. Existem
vários parques e reservas que são muito bonitos, e estamos
trabalhando para fazer as liberações para a visitação pública.

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