No ano de 2008, como acontece há décadas, a Amazônia continuou tendo seus recursos drenados pela ação humana descontrolada e foi ainda mais corroída pela devastação. Ainda assim, o ano teve fatos marcantes que podem ser comemorados, como a estagnação do ritmo de devastação em um patamar semelhante ao do ano passado (veja gráfico abaixo), e grandes ações de repressão ao desmatamento que, aparentemente, contribuíram para conter a destruição que, no início de 2008, ameaçava voltar a subir com força.
Floresta do Bom Futuro, em Rondônia, uma das unidades de conservação ameaçadas pelo desmatamento.
Logo em janeiro, a então ministra do Meio Ambiente, Marina Silva,
alarmada pelo desmatamento de cerca de 7 mil quilômetros
quadrados entre agosto e dezembro de 2007, proibiu o
desmatamento em 36 municípios com maior incidência de desflorestamento.
O levantamento divulgado pela ministra apontava
que Mato Grosso era o estado que concentrava a maior parte da
devastação na região amazônica, seguido do Pará e de Rondônia.
Iniciou-se com isso um desentendimento entre o governador
mato-grossense Blairo Maggi, o Ministério do Meio Ambiente e o
Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) que forneceu os
dados para que os muncípios com mais devastação fossem
elencados. Maggi afirmou que o instituto analisou vários dos
pontos de desmatamento de forma incorreta: as áreas seriam de
queimadas acidentais (sem o objetivo de desmatar) ou
desmatamentos antigos.
Marina Silva, o ministro da Justiça, Tarso Genro, e o ministro do Desenvolvimento Agrário, Guilherme Cassel, e o governador de Mato Grosso, Blairo Maggi, sobrevoaram, no dia 30 de janeiro, alguns dos municípios com maior incidência de desmatamento no estado.
Em fevereiro, a cidade de Tailândia (PA), foi alvo
de uma grande operação de fiscalização conjunta dos governos
estadual e federal, e foram apreendidos mais de 10 mil metros
cúbicos de madeira. Os madeireiros protestaram e impediram a
retirada do material. Moradores do município, ameaçados pelo
desemprego, bloquearam a rodovia PA-150 revoltados com a
Operação Arco de Fogo. Por
causa da confusão, a fiscalização foi suspensa e os fiscais
só voltaram acompanhados de homens da Polícia Federal e da
Força Nacional de Segurança.
Evolução do desmatamento da Amazônia detectado pelo Deter.
Marina sai
Enfrentando oposição, Marina Silva acabou deixando
o governo em maio. Na carta de demissão apresentada ao
presidente Luiz Inácio Lula da Silva, ela
atribuiu sua saída às dificuldades enfrentadas "há
algum tempo para dar prosseguimento à agenda ambiental federal".
O novo ministro do Meio Ambiente, Carlos Minc (à direita), com sua antecessora, Marina Silva, e o presidente Lula.
No lugar de Marina Silva, assumiu Carlos Minc, que chegou ao cargo envolto em polêmica porque, antes de ser confirmado como ministro, declarou que, se pudesse, Blairo Maggi plantaria soja "até nos Andes" - o governador mato-grossense é um dos maiores produtores da commodity em todo o mundo.
Minc assumiu com a promessa de acelerar os licenciamentos
ambientais e aumentar a repressão aos desmatadores.
Entre
as primeiras medidas do novo ministro esteve a apreensão de
gado criado ilegalmente em áreas de conservação - o chamado
"boi pirata". O governador de Mato Grosso
alertou que esse tipo de ação poderia elevar o preço dos
alimentos. Minc brincou que "o boi pirata" viraria
"churrasco do fome zero". O governo encontrou
dificuldades para leiloar
as cerca de 3 mil cabeças de gado apreendidas.
Globo Amazônia
No dia 7 de setembro, foi lançado o portal
Globo Amazônia
, com seu mapa interativo que mostra em tempo real os dados
de queimada e desmatamento do Inpe, além de permitir que os
internautas protestem contra a devastação. Em três meses, o
aplicativo que permite protestar foi instalado mais
de 450 mil vezes e foram registrados cerca de 40 milhões de protestos.
No final daquele mês, Carlos Minc apresentou
uma lista com os cem maiores desmatamentos da Amazônia
produzida pelo Ibama. As maiores áreas eram
assentamentos do Instituto Nacional de Colonização e Reforma
Agrária (Incra), o que levou a um desentendimento entre o
Ministério do Meio Ambiente e o do Desenvolvimento Agrário.
Guilherme Cassel, ministro a quem o Incra está subordinado, disse que a lista estava errada e que seria injusto culpar assentados de reforma agrária pela destruição da Amazônia. Minc mandou revisar a lista, mas reportagem do Fantástico mostrou atividade madeireira ilegal em assentamento em Mato Grosso.
As duas pastas acabaram minimizando as diferenças
e Minc
chegou a participar de fiscalização com Rolf Hackbart,
presidente do Incra.
Outro fato importante da segunda metade do ano foi
a criação
do Fundo Amazônia. O fundo já recebeu sua primeira
doação, do governo da Noruega. O primeiro-ministro norueguês,
Jens Stoltenberg, esteve no país em setembro e anunciou que seu
país pretende doar até US$ 1 bilhão para ações de proteção
ambiental financiadas pelo fundo até 2015. Em 2009, será feita
uma doação de US$ 130 milhões.
Os recursos obtidos pelo fundo, que será gerido
pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social
(BNDES), não poderão ser contingenciados pelo governo federal. A
perspectiva de captação de recursos junto a países e entidades
estrangeiros levou a acusações de que o Fundo Amazônia poderia
ferir a soberania nacional, o que foi negado pelo governo.
No final de novembro, madeireiros contrários a uma fiscalização do Ibama atacaram a sede do instituto em Paragominas (PA). Quatro veículos foram queimados e parte do rédio foi destruída. Em resposta, as operações no município ganharam reforço e, em menos de uma semana, 11 mil metros cúbicos de madeira foram apreendidos.
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