Poucos dias antes da morte de Chico Mendes completar 20 anos, o sindicato que foi fundado e presidido por ele em Xapuri (AC) publicou uma nota defendendo a criação de gado dentro da reserva que leva o nome do seringueiro.
Em repúdio a uma fiscalização do Ibama realizada na reserva
extrativista Chico Mendes, o Sindicato dos Trabalhadores Rurais
de Xapuri (AC) publicou, nesta quinta-feira (18), um manifesto
em que critica o prazo dado para que criações de gado fossem
retiradas da área, e defende a criação de bois como forma de
complementar a renda dos seringueiros.
“Nestes dezoito anos de criação da Reserva não
existe uma política que garanta uma renda para os seringueiros
viverem com dignidade exclusivamente da produção extrativista”,
diz o primeiro item do documento.
Segundo João Alves da Silva, um dos diretores do
sindicato, o preço da borracha e da castanha – produto que
também pode ser extraído da reserva – são muito baixos. “A
borracha custa R$ 4,10 quando está limpa [cozida]. Uma família
consegue obter cerca de 200 quilos, dependendo do lugar em que
ela estiver. Mas isso em alguns meses do ano. No período de
dezembro a março não dá para colher. A castanha, com casca, é
vendida por R$ 10 a lata de 20 litros”, informa.
Gado e desmatamento
A fiscalização do Ibama começou em 25 de novembro, e visa coibir
a derrubada da mata para criação de gado. Segundo o instituto,
há mais de 10 mil animais vivendo dentro da área reserva. Para
abrigar tantos bois, o desmatamento dentro da área protegida já
atinge 450 quilômetros quadrados – cerca de um terço do
município de São Paulo.
Segundo o chefe da reserva, Sebastião Santos da
Silva, há um limite de 30 cabeças de gado para cada lote dentro
da reserva. As famílias que passaram desse limite foram
notificadas pelo Ibama e têm que retirar os animais em 60 dias,
além de pagar multa pelo desmatamento além do permitido. Quem
não é seringueiro e estava ocupando a área irregularmente terá
que deixar o local. “Aos colonos vai ser dada a possibilidade de
se adequarem”, explica Silva.
Para o diretor do sindicato de Xapuri, o prazo
curto para a retirada do gado faz com que os preços caiam muito,
e os moradores tenham prejuízos. “Eles não fiscalizaram antes, e
agora querem que desocupe a área em 60 dias. Aí o comprador
coloca o preço lá embaixo. Achamos que teria que haver uma
conscientização por um período mais longo”, reclama.
O chefe da reserva rebate dizendo que está
seguindo a lei. “Os prazos são estabelecidos na legislação. A
multa também é estabelecida por um decreto. A multa do
desmatamento, por exemplo, é de R$ 5 mil por hectare, ou R$ 10
mil quando ocorre em unidade de conservação [como é o caso]”.
Como há famílias que desmataram dezenas de
hectares, as multas aplicadas chegam a centenas de milhares de
reais. Para o sindicalista João Alves, os moradores não têm
capacidade de pagar as autuações. “Mesmo vendendo todo o gado,
não se consegue pagar essas multas”, afirma.
Segundo Silva, as reclamações do sindicato representam uma pequena parte dos moradores. "Temos 80% das pessoas vivendo do extrativismo e vivendo dignamente. Migrar para a pecuária foi o jeito mais fácil que [os que reclamam]encontraram de ganhar dinheiro", diz.

O Portal de Notcias da Globo