Aílton Krenak é um índio que tem cara de 30, sabedoria de 90 e 55
anos de idade. Nasceu no médio rio Doce, na divisa de Minas
Gerais com o Espírito Santo, mas fala com desenvoltura sobre
qualquer pedacinho do Brasil, e levanta o tom quando se começa a
discutir a Amazônia.
Apesar de ter se alfabetizado só no final da
adolescência e ter freqüentado apenas o supletivo, Krenak
devorou montanhas de livros de autores latino-americanos. Quem o
vê falando, pausada e firmemente, facilmente diria que é
professor universitário.
Na década de 1980, como um dos membros da Aliança
dos Povos da Floresta, ele ganhou projeção nacional ao lado de
líderes como Chico Mendes, trazendo ao conhecimento do mundo os
problemas sociais e ambientais vividos na Amazônia.
Em entrevista por telefone ao Globo
Amazônia, o líder indígena não poupou palavras ao
defender a demarcação contínua das terras indígenas na
fronteira, e é catastrófico ao prever o que pode acontecer com o
planeta caso sejam mantidos os hábitos de consumo atuais.
Veja abaixo os melhores trechos da conversa com
Aílton Krenak.
Globo Amazônia - Muitas pessoas temem que a união entre
povos indígenas da Amazônia e ONGs estrangeiras possa
significar uma porta aberta para uma possível
“internacionalização” da Amazônia. O que você acha disso?
Ninguém irá tomar terra, irá tomar floresta do
Brasil nem dos índios. A floresta está sendo destruída por
empreendimentos como aquele que a gente viu no Fantástico
mostrando a reserva de Bom Futuro comida por dentro. Não são
ONGs estrangeiras que vão fazer isso [destruir a Amazônia].
Somos nós, brasileiros desorganizados que estamos fazendo.
-
Se a gente tiver sentido de pertencimento a um lugar, não tem que ficar morrendo de medo de ninguém."
Em relação a essa cultura que sempre fica achando que tem um estrangeiro que vai nos comer, ela é muito cretina e irresponsável. Se a gente tiver sentido de pertencimento a um lugar, não tem que ficar morrendo de medo de ninguém. A gente tem que se erguer sobre as terras em que nasceu, ter respeito por ela e fazer os outros respeitarem também.
Quem fala isso em geral são pessoas que estão longe, que não dão
um dedinho de contribuição para tapar o lixo, preservar, tirar
um esgoto da beira do córrego. Essas pessoas deveriam direcionar
sua urgência para pensar como elas podem contribuir para que a
gente possa ser gestor território do nosso país, e não ficar
chorando com medo de que os estrangeiros venham comer a gente.
Hoje temos vários conflitos envolvendo indígenas: em
Roraima, há o problema da demarcação da Raposa Serra do Sol.
No Acre, as madeireiras peruanas ameaçam índios isolados. No
Rio Xingu, indígenas reclamam que sua vida será prejudicada
pela construção de barragens. Pode-se dizer que os povos
indígenas vivem uma crise?
Não. O Brasil é que ainda não resolveu o que quer
fazer com os índios, como gente, e nem consigo mesmo como nação,
no sentido de ter uma infraestrutura, de ter fronteiras, e de
definir a gestão territorial.
Se o Brasil tivesse gestão territorial, os índios
de Roraima teriam terras reconhecidas e demarcadas, os índios de
fronteira estariam sendo monitorados sem stress, e a
infraestrutura do Brasil – usinas, estradas, hidrovias,
ferrovias – estaria projetada, negociada, e não teria crise
nenhuma.
O que você acha da demarcação contínua de terras
indígenas em faixas de fronteira? Há algum risco para o
estado?
A faixa de fronteira que está contando no século
XXI não é mais aquele lugar que você coloca uma guarita, um
quartel e vigia. O que contas hoje são as economias. Nós estamos
levando calote dos nossos vizinhos em milhões ou bilhões de
dólares, e isso é que deveria chamar a atenção das pessoas.
-
Foram os índios que alargaram os limites territoriais do Brasil."
Marechal Rondon, desde o tempo dele, o Barão do Rio Branco, todo
mundo que conhece bem a história brasileira diria que foram os
índios que alargaram os limites territoriais do Brasil. Se foram
os índios que garantiram a fronteira com a Guiana, com a
Bolívia, por que o medo de deixá-los na fronteira?
Temos que lembrar que muito tempo atrás, a terra
era contínua mesmo. Era o país inteiro terra de índio. Agora
eles deixaram umas bordas para as pessoas viverem, e ainda ficam
com a mesquinharia de achar que é muito. É o fim da picada.
Qual sua posição em relação à mineração nas terras
indígenas? Ela deve ser liberada, para que as tribos possam
obter recursos a partir dessa atividade, ou proibida, como
forma de proteção às comunidades?
Quem nasceu primeiro, o ovo ou a galinha? Se o
estado brasileiro não conseguiu dizer até agora onde estão as
terras indígenas, como é que ele vai dizer o que se pode fazer
nas terras indígenas? Se a gente ainda tem terras de índios na
fronteira, que o estado não sabe se demarca, se dá o título de
terra indígena, como o Congresso pode definir o que fazer com
esses lugares que ainda não têm existência real?
Grande parte da cultura indígena está se perdendo. Como
aliar os saberes indígenas, como a língua, o conhecimento
das plantas e sua religião com um mundo que valoriza cada
vez mais a alta tecnologia, uma relação rápida, urbana com
as coisas?
A alta tecnologia se alimenta dos processos da
natureza. A matriz da alta tecnologia é a natureza. Se nós
acabarmos com a natureza, é aí que nós vamos divorciar de uma
vez a possibilidade do conhecimento tradicional, do conhecimento
sobre a natureza se relacionar com o futuro.
E você acha que os índios irão manter o modo de vida
tradicional mesmo com um mundo que muda tanto? Como juntar
essas duas coisas?
O nosso planeta está cada vez menor. A cada década
vamos sentir o planeta se fechando sobre si mesmo, no sentido da
comunicação, da gente saber o que está acontecendo ao mesmo
tempo em todos os continentes. Essa proximidade, essa fricção
que estamos experimentando com o mundo inteiro vai crescer a
cada década, e vai chegar um momento em que não temos mais como
imaginar nenhum grupo humano vivendo isolado ou com culturas
distintas uma da outra.
-
Ou todo mundo tem responsabilidade com o planeta, ou a gente se arrebenta e o planeta cospe a gente daqui, morrem bilhões de pessoas."
E também vai chegar uma hora em que vamos ter uma urgência
planetária que vai nos colocar todos dentro da mesma canoa. Ou
todo mundo tem responsabilidade com o planeta, ou a gente se
arrebenta e o planeta cospe a gente daqui, morrem bilhões de
pessoas. E aí não vai ter campanha de solidariedade, ninguém vai
poder mandar colchonete nem brinquedinho, porque aí o planeta
vai entrar em convulsão, e vai ser um caos, um inferno que essa
gente nunca viu.
Não sou profeta do apocalipse, mas as pessoas não
têm sentido a realidade que o planeta está vivendo.
Como vê o tratamento diferenciado que o estado
brasileiro dá aos índios? A tutela da Funai é sempre algo
positivo?
Eu não acho bom de jeito nenhum. Isso é uma
herança do passado colonial e genocida. É a mesma atitude tem
com relação à África. O ocidente invadiu a África e agora tem um
sentimento de culpa, querendo compensar a África pela desgraça
que foi jogada sobre o continente.
No caso das Américas, não é só no Brasil. Nos
Estados Unidos e no Canadá também há um tratamento excepcional
aos povos chamados “nativos”. No Brasil, o estado começou
tardiamente a fazer algumas políticas de tentar consertar o
dolo.
Mas a cultura que prevalece é uma cultura de
tutela. Os estados nacionais tiveram que inventar uma maneira de
se relacionar com os sobreviventes da colonização, e isso se
chama tutela. A tutela significa que nós seremos por muito tempo
ainda sermos tratados como gente incapaz de tomar decisões
sozinha, incapaz de sobreviver sozinha.
E também essa história de achar que os estados
nacionais fazem alguma coisa de bom, de mal, reflete a nossa
incapacidade de atuar, de interagir, de sermos co-responsáveis.
Se cada um tivesse a coragem de assumir a responsabilidade sobre
as coisas que estão acontecendo, não deixaríamos para as futuras
gerações um país tão degradado.
-
Nos últimos 20 anos é proibido acabar com os índios. Mas só nos últimos 20 anos. Nos outros 500 anos era para acabar, mesmo."
Se o estado trata com tanta diferença os índios, é porque ele não
tem ainda a capacidade de entender o que é essa gente que ele
chama de índios. Sempre se ficou na dúvida do que fazer com essa
gente. Se matava essa gente ou a deixava sobreviver. Isso só
mudou com a Constituição de 1988. Então, nos últimos 20 anos é
proibido acabar com os índios. Mas só nos últimos 20 anos. Nos
outros 500 anos era para acabar, mesmo.
Os irmãos Villas Bôas conseguiram criar uma
vitrine, que é o Parque do Xingu, para manter uma amostra desses
remanescentes humanos para mostrar para os futuros, para a
posteridade. Eles eram combatidos ferozmente, porque ninguém
queria o Xingu. O Xingu sobreviveu, mas sobrou um grande Xingu,
periférico, desorganizado, nas fronteiras.
Você é uma pessoa que, apesar de já ter aprendido tudo
do mundo dos “brancos”, ainda pode ser considerado um
especialista nos saberes indígenas. O que você acha que os
“brancos” deveriam aprender com os índios, e que ainda não
aprenderam?
O Oswald de Andrade tem um poeminha que se chama
“Erro de português”, em que ele fala assim: “Quando o português
chegou / Debaixo duma bruta chuva / Vestiu o índio / Que pena! /
Fosse uma manhã de sol / O índio tinha despido / O português”.
O que as pessoas ainda não entenderam é que esse
negócio de índio é um erro de português. Não tem uma história
que eles queriam ir para a Índia e, sem saber que erraram o
caminho, chegaram aqui e chamaram o povo de índio?
A gente não precisava ter recorrido nesse erro. Lá
pelos séculos XVIII ou XIX, a gente já poderia ter se
relacionado que nem gente, sem essa de índio e branco. Se isso
fosse resolvido, metade dos problemas teria acabado.

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