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24/12/08 - 07h35 - Atualizado em 24/12/08 - 07h35

'O Brasil ainda não resolveu o que fazer com os índios', diz líder indígena

Aílton Krenak defende demarcação de áreas contínuas na fronteira.
Ele reclama da demora do estado em reconhecer direitos indígenas.

Iberê Thenório Do Globo Amazônia, em São Paulo

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Aílton Krenak é um índio que tem cara de 30, sabedoria de 90 e 55 anos de idade. Nasceu no médio rio Doce, na divisa de Minas Gerais com o Espírito Santo, mas fala com desenvoltura sobre qualquer pedacinho do Brasil, e levanta o tom quando se começa a discutir a Amazônia.

Apesar de ter se alfabetizado só no final da adolescência e ter freqüentado apenas o supletivo, Krenak devorou montanhas de livros de autores latino-americanos. Quem o vê falando, pausada e firmemente, facilmente diria que é professor universitário.

Na década de 1980, como um dos membros da Aliança dos Povos da Floresta, ele ganhou projeção nacional ao lado de líderes como Chico Mendes, trazendo ao conhecimento do mundo os problemas sociais e ambientais vividos na Amazônia.

Em entrevista por telefone ao Globo Amazônia, o líder indígena não poupou palavras ao defender a demarcação contínua das terras indígenas na fronteira, e é catastrófico ao prever o que pode acontecer com o planeta caso sejam mantidos os hábitos de consumo atuais.

Veja abaixo os melhores trechos da conversa com Aílton Krenak.

Globo Amazônia - Muitas pessoas temem que a união entre povos indígenas da Amazônia e ONGs estrangeiras possa significar uma porta aberta para uma possível “internacionalização” da Amazônia. O que você acha disso?

Ninguém irá tomar terra, irá tomar floresta do Brasil nem dos índios. A floresta está sendo destruída por empreendimentos como aquele que a gente viu no Fantástico mostrando a reserva de Bom Futuro comida por dentro. Não são ONGs estrangeiras que vão fazer isso [destruir a Amazônia]. Somos nós, brasileiros desorganizados que estamos fazendo.

 

  • Aspas

    Se a gente tiver sentido de pertencimento a um lugar, não tem que ficar morrendo de medo de ninguém."

Em relação a essa cultura que sempre fica achando que tem um estrangeiro que vai nos comer, ela é muito cretina e irresponsável. Se a gente tiver sentido de pertencimento a um lugar, não tem que ficar morrendo de medo de ninguém. A gente tem que se erguer sobre as terras em que nasceu, ter respeito por ela e fazer os outros respeitarem também.

 

Quem fala isso em geral são pessoas que estão longe, que não dão um dedinho de contribuição para tapar o lixo, preservar, tirar um esgoto da beira do córrego. Essas pessoas deveriam direcionar sua urgência para pensar como elas podem contribuir para que a gente possa ser gestor território do nosso país, e não ficar chorando com medo de que os estrangeiros venham comer a gente.

Hoje temos vários conflitos envolvendo indígenas: em Roraima, há o problema da demarcação da Raposa Serra do Sol. No Acre, as madeireiras peruanas ameaçam índios isolados. No Rio Xingu, indígenas reclamam que sua vida será prejudicada pela construção de barragens. Pode-se dizer que os povos indígenas vivem uma crise?

Não. O Brasil é que ainda não resolveu o que quer fazer com os índios, como gente, e nem consigo mesmo como nação, no sentido de ter uma infraestrutura, de ter fronteiras, e de definir a gestão territorial.

Se o Brasil tivesse gestão territorial, os índios de Roraima teriam terras reconhecidas e demarcadas, os índios de fronteira estariam sendo monitorados sem stress, e a infraestrutura do Brasil – usinas, estradas, hidrovias, ferrovias – estaria projetada, negociada, e não teria crise nenhuma.

O que você acha da demarcação contínua de terras indígenas em faixas de fronteira? Há algum risco para o estado?

A faixa de fronteira que está contando no século XXI não é mais aquele lugar que você coloca uma guarita, um quartel e vigia. O que contas hoje são as economias. Nós estamos levando calote dos nossos vizinhos em milhões ou bilhões de dólares, e isso é que deveria chamar a atenção das pessoas. 

 

  • Aspas

    Foram os índios que alargaram os limites territoriais do Brasil."

Marechal Rondon, desde o tempo dele, o Barão do Rio Branco, todo mundo que conhece bem a história brasileira diria que foram os índios que alargaram os limites territoriais do Brasil. Se foram os índios que garantiram a fronteira com a Guiana, com a Bolívia, por que o medo de deixá-los na fronteira?

Temos que lembrar que muito tempo atrás, a terra era contínua mesmo. Era o país inteiro terra de índio. Agora eles deixaram umas bordas para as pessoas viverem, e ainda ficam com a mesquinharia de achar que é muito. É o fim da picada.

Qual sua posição em relação à mineração nas terras indígenas? Ela deve ser liberada, para que as tribos possam obter recursos a partir dessa atividade, ou proibida, como forma de proteção às comunidades?

Quem nasceu primeiro, o ovo ou a galinha? Se o estado brasileiro não conseguiu dizer até agora onde estão as terras indígenas, como é que ele vai dizer o que se pode fazer nas terras indígenas? Se a gente ainda tem terras de índios na fronteira, que o estado não sabe se demarca, se dá o título de terra indígena, como o Congresso pode definir o que fazer com esses lugares que ainda não têm existência real?

Grande parte da cultura indígena está se perdendo. Como aliar os saberes indígenas, como a língua, o conhecimento das plantas e sua religião com um mundo que valoriza cada vez mais a alta tecnologia, uma relação rápida, urbana com as coisas?

A alta tecnologia se alimenta dos processos da natureza. A matriz da alta tecnologia é a natureza. Se nós acabarmos com a natureza, é aí que nós vamos divorciar de uma vez a possibilidade do conhecimento tradicional, do conhecimento sobre a natureza se relacionar com o futuro.

E você acha que os índios irão manter o modo de vida tradicional mesmo com um mundo que muda tanto? Como juntar essas duas coisas?

O nosso planeta está cada vez menor. A cada década vamos sentir o planeta se fechando sobre si mesmo, no sentido da comunicação, da gente saber o que está acontecendo ao mesmo tempo em todos os continentes. Essa proximidade, essa fricção que estamos experimentando com o mundo inteiro vai crescer a cada década, e vai chegar um momento em que não temos mais como imaginar nenhum grupo humano vivendo isolado ou com culturas distintas uma da outra.

 

  • Aspas

    Ou todo mundo tem responsabilidade com o planeta, ou a gente se arrebenta e o planeta cospe a gente daqui, morrem bilhões de pessoas."

E também vai chegar uma hora em que vamos ter uma urgência planetária que vai nos colocar todos dentro da mesma canoa. Ou todo mundo tem responsabilidade com o planeta, ou a gente se arrebenta e o planeta cospe a gente daqui, morrem bilhões de pessoas. E aí não vai ter campanha de solidariedade, ninguém vai poder mandar colchonete nem brinquedinho, porque aí o planeta vai entrar em convulsão, e vai ser um caos, um inferno que essa gente nunca viu.

Não sou profeta do apocalipse, mas as pessoas não têm sentido a realidade que o planeta está vivendo.

Como vê o tratamento diferenciado que o estado brasileiro dá aos índios? A tutela da Funai é sempre algo positivo?

Eu não acho bom de jeito nenhum. Isso é uma herança do passado colonial e genocida. É a mesma atitude tem com relação à África. O ocidente invadiu a África e agora tem um sentimento de culpa, querendo compensar a África pela desgraça que foi jogada sobre o continente.

No caso das Américas, não é só no Brasil. Nos Estados Unidos e no Canadá também há um tratamento excepcional aos povos chamados “nativos”. No Brasil, o estado começou tardiamente a fazer algumas políticas de tentar consertar o dolo.

Mas a cultura que prevalece é uma cultura de tutela. Os estados nacionais tiveram que inventar uma maneira de se relacionar com os sobreviventes da colonização, e isso se chama tutela. A tutela significa que nós seremos por muito tempo ainda sermos tratados como gente incapaz de tomar decisões sozinha, incapaz de sobreviver sozinha.

E também essa história de achar que os estados nacionais fazem alguma coisa de bom, de mal, reflete a nossa incapacidade de atuar, de interagir, de sermos co-responsáveis. Se cada um tivesse a coragem de assumir a responsabilidade sobre as coisas que estão acontecendo, não deixaríamos para as futuras gerações um país tão degradado. 

 

  • Aspas

    Nos últimos 20 anos é proibido acabar com os índios. Mas só nos últimos 20 anos. Nos outros 500 anos era para acabar, mesmo."

Se o estado trata com tanta diferença os índios, é porque ele não tem ainda a capacidade de entender o que é essa gente que ele chama de índios. Sempre se ficou na dúvida do que fazer com essa gente. Se matava essa gente ou a deixava sobreviver. Isso só mudou com a Constituição de 1988. Então, nos últimos 20 anos é proibido acabar com os índios. Mas só nos últimos 20 anos. Nos outros 500 anos era para acabar, mesmo.

Os irmãos Villas Bôas conseguiram criar uma vitrine, que é o Parque do Xingu, para manter uma amostra desses remanescentes humanos para mostrar para os futuros, para a posteridade. Eles eram combatidos ferozmente, porque ninguém queria o Xingu. O Xingu sobreviveu, mas sobrou um grande Xingu, periférico, desorganizado, nas fronteiras.

Você é uma pessoa que, apesar de já ter aprendido tudo do mundo dos “brancos”, ainda pode ser considerado um especialista nos saberes indígenas. O que você acha que os “brancos” deveriam aprender com os índios, e que ainda não aprenderam?

O Oswald de Andrade tem um poeminha que se chama “Erro de português”, em que ele fala assim: “Quando o português chegou / Debaixo duma bruta chuva / Vestiu o índio / Que pena! / Fosse uma manhã de sol / O índio tinha despido / O português”.

O que as pessoas ainda não entenderam é que esse negócio de índio é um erro de português. Não tem uma história que eles queriam ir para a Índia e, sem saber que erraram o caminho, chegaram aqui e chamaram o povo de índio?

A gente não precisava ter recorrido nesse erro. Lá pelos séculos XVIII ou XIX, a gente já poderia ter se relacionado que nem gente, sem essa de índio e branco. Se isso fosse resolvido, metade dos problemas teria acabado.

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