Carnavalesco Paulo Führo mostra a deusa batizada de 'Hevea Brasiliensis' – nome científico da seringueira. (Foto: Iberê Thenório/Globo Amazônia)
Quem associa a floresta amazônica a imagens de desmatamento, rios gigantes ou garimpos clandestinos rasgando a terra terá uma surpresa ao ver o desfile da escola de samba X-9 Paulistana, que escolheu a Amazônia como enredo em 2009.
Veja
o álbum de fotos com as alegorias da X-9
Ao lado de deuses indígenas lendários, o grupo
mostrará uma crítica debochada à cobiça pelas riquezas da
floresta. Representado por um corvo azul, o carro que mostra a
exploração da mata traz um palhaço que vende hambúrgueres feitos
com os bois da festa de Parintins.
"Não vamos mostrar a Amazônia como foi
mostrada até agora, que é o boto, a Iara. Aquela é uma visão
muito romântica ", avisa o carnavalesco Paulo Führo, que
vai fazer sambarem juntos, em nome da floresta, sósias de Raul
Seixas, sambistas em forma de seringueiros e Rita Cadillac.
"A função do carnaval não é a discussão política, é
debochar", ensina.
Dentro da lógica carnavalesca, a crítica se
mistura à brincadeira, e elementos aparentemente sem conexão
aparecem unidos. Führo usa dessa liberdade para abrir o desfile
com uma barca encantada, que navega pelos igarapés amazônicos
levada por Dom Sebastião – o lendário rei de Portugal, que no
século XVI desapareceu em uma batalha na África e nunca mais voltou.
Desfile será aberto por barca encantada que navega por igarapés amazônicos. (Foto: Iberê Thenório/Globo Amazônia)
O desfile segue com a apresentação de uma deusa gigante, mistura
de árvore e mulher, batizada de Hevea Brasiliensis – o nome
científico da seringueira. No enredo da X-9, ela representa a
divindade que, com seu leite, teria alimentado as riquezas dos
coronéis da borracha e dos milhares de seringueiros que saíram
do Nordeste e se dirigiram à selva.
Com olhos gordos sobre os tesouros amazônicos, o
carro seguinte traz um corvo azul, simbolizando os interesses
internacionais. Apimentando a polêmica, Führo lembra da
influência cultural norte-americana e coloca Madonna dançando
junto a engrenagens coloridas, que giram junto a águas poluídas.
A alegoria traz ainda vários sapatos – alusão à recente
"sapatada" recebida por George Bush no Iraque.
Em resposta à cobiça, surge no próximo carro o
Guerreiro de Anhangá, um ser mitológico indígena. "Ele é a
energia que se volta contra o homem quando trata mal a
natureza", explica o carnavalesco. Para vencer o pássaro
malvado, Anhangá usa como arma a brasilidade: seus soldados são
Clara Nunes, Gonzagão, Rita Cadillac – esta em carne-e-osso –,
Raul Seixas e o velho guerreiro, Chacrinha, que tasca uma
buzinada no corvo azul e lhe entrega o troféu abacaxi. Afinal de
contas, é carnaval.

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