A Amazônia tem a maior diversidade de doenças tropicais. Mas é
justamente onde está a doença que também está a possibilidade da
cura. Um exemplo disso é o trabalho desenvolvido pelo biólogo e
botânico Juan Revilla, do Instituto Nacional de Pesquisas
Amazônicas (Inpa), que há dois anos pesquisa plantas e árvores
na cidade de Manaquiri, no Rio Solimões. O trabalho é feito com
os produtores rurais da região para que cultivem vegetais que
tenham algum poder de cura e também valor de mercado.
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“A mirapuama, dentro das espécies em potencial
amazônico, é a número um. Por suas propriedades energéticas, ela
funciona como um modulador do sistema nervoso. Quando a pessoa
está estressada, ele acalma”, explica o biólogo. “Eles [os
produtores rurais] vão ter o conhecimento para fazer o
aproveitamento. Eles deverão ser os futuros fornecedores de
matéria-prima para a indústria”, aponta.
Muito antes dos biólogos e botânicos se
aventurarem pelas matas, os caboclos já tinham as suas receitas,
nascidas da necessidade de viver nas margens; dos rios, e da
floresta. “Para a malária, se estiver muito avançada, você pega
a folha da manga madura no chão, ferve, faz o chá, coloca uma
pitada de pólvora preta e pode tomar. A doença vai embora e não
volta mais”, ensina o trabalhador rural Reginaldo.
A sabedoria do caboclo passa de geração para
geração. Reginaldo está com leishmaniose, uma ferida aberta na
perna. Não tem remédio que alivie: “Eu queria fazer uma
experiência, mas já procurei tanto uma surucucu e não achei”,
afirma.
A leishmaniose é uma doença que pode até matar.
Atinge principalmente os que vivem em áreas recentemente
desmatadas. O transmissor da doença é um inseto que os
cientistas chamam de flebótomo e o povo da floresta de
tatuquira. Os pesquisadores do Inpa têm vários estudos e
pesquisas para encontrar algum produto que extermine o tatuquira
e outros que curem a doença. “Fizemos testes com uma planta
chamada jucá, que a população conhece como anti-inflamatória”,
diz uma pesquisadora do instituto.
A floresta, como uma biblioteca, guarda infinitas
possibilidades na sua natureza. Tudo à espera de que alguém
desvende seus mistérios e compreenda sua complexidade.
“Quando você olha a floresta assim, vê que a
biodiversidade não é teoria. Você vê que as árvores são
completamente diferentes umas das outras e isso aconteceu no
decorrer de milhões de anos. Essas árvores vêm produzindo
substâncias para se defender dos parasitas. É muito provável que
existam substâncias produzidas por esses vegetais que sirvam
para uso em doenças humanas”, comenta o médico Drauzio Varella.
O Projeto de Pesquisa do Rio Negro começou 12 anos
atrás. Varella e uma equipe de pesquisadores fazem uma coleta
mensal de folhas, caules e troncos na Floresta Amazônica, nas
margens do Rio Cuieiras, na região do Rio Negro.
Osmar, o mateiro, é quem coleta as amostras. As
folhas e caules são identificadas com o número 649. Esse
material é enviado para São Paulo e vai parar em uma gaveta,
para a secagem. “Esse número permanece com a planta até ela ser
estudada até o fim”, mostra uma pesquisadora no laboratório.
Depois de secas, as plantas são processadas em
solventes, maceradas por 24 horas até se obter um extrato. “Hoje
nós temos a felicidade de ter testado mais de 1,5 mil extratos.
Já encontramos ao redor de 140 substâncias, extratos ativos,
contra células tumorais, câncer e contra bactérias que são
resistentes a todos os antibióticos conhecidos”, comemora o
coordenador da pesquisa, Riad Younes.
Da célula até a floresta tem uma distância enorme.
O Projeto do Rio Negro prevê a coleta sistemática de folhas,
caules e troncos em uma área demarcada de 12 hectares. Trabalho
para uma vida inteira.
“É como procurar uma agulha em um palheiro, é você
ir atrás de uma substância que pode estar contida em qualquer
lugar da floresta, em qualquer uma dessas plantas. A Floresta
Amazônica, no futuro, vai se transformar em uma grande
laboratório”, afirma o médico Drauzio Varella.

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