Para Felício Pontes, Dorothy foi morta por tentar provar que reforma agrária sustentável era possível. (Foto: Antonio Cruz/ABr)
A missionária norte-americana Doroty Stang, assassinada em Anapu
(PA) há exatos quatro anos, morreu no confronto entre um tipo de
agricultura que beneficiava o meio ambiente e outro que
devastava. Esse é o ponto de vista do procurador da república
Felício Pontes Jr, que atua no Pará e é especializado em casos
de grilagem de terras – quando fazendeiros se apropriam
indevidamente de áreas pertencentes ao país.
Dorothy defendia um jeito de plantar que misturava
grandes árvores frutíferas a pequenas plantas, mantendo a
floresta em pé. Batizado de Projeto de Desenvolvimento
Sustentável (PDS), esse modelo começava a ser usado em
assentamentos de reforma agrária na Amazônia.
Segundo Pontes, o sucesso do projeto da
missionária incomodava alguns fazendeiros da região. Donos de
terras supostamente obtidas com a falsificação de documentos,
eles teriam medo de perder suas propriedades para projetos de
reforma agrária.
“[O local onde a missionária foi assassinada] é
uma terra muito longínqua, perdida, pequena. Por que então matar
irmã Dorothy? Porque o projeto era extremamente perigoso para
fazendeiros e madeireiros. Se ele desse certo, mostraria que é
possível fazer reforma agrária na Amazônia”, argumenta o procurador.
Prisão por grilagem
A tese de Pontes ganha força com a prisão de um
dos acusados de ser mandante da morte da missionária. Regivaldo
Galvão, conhecido também como “Taradão”, ainda não foi julgado
pela acusação de assassinato, mas permanece preso de forma
preventiva desde o final de 2008 pela suposta falsificação de
documentos de propriedades de terra.
Acusado também de trabalho escravo, Galvão nega os
crimes. Em um site criado para defendê-lo, ele afirma que não
tem relação com o crime contra Dorothy e que adquiriu terras de
forma legal. “Tenho várias testemunhas que comprovam que eu
preferia até perder aquelas terras que foram adquiridas
legalmente de que ter que passar por um conflito pela posse
delas”, diz trecho de seu depoimento.
Para Pontes, o crime de grilagem de terras também
está ligado à destruição do meio ambiente. “A grilagem de terras
[ocorrida nas últimas décadas] tinha um propósito claro: buscar
financiamento de bancos públicos. Os projetos – defendidos como
‘desenvolvimento’ – eram, em sua imensa maioria, para retirada
de madeira ou pecuária. Eram financiamentos para devastar a
Amazônia”, afirma o procurador.

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